Ok, você pediu
você plantou
você se abriu
você sonhou
e acordou
entre suspiros
a olhar para a distancia
uma vida a esperar...
por quem você mal viu
e até chorou
quando partiu
que procurou
mas estava a mil
agora esquece essa intenção
que a vida acende
o candelabro da razão
juntando outros lados
da mesma questão,
as cartas na mesa
e as cinzas no chão,
dispenso as certezas
mas presto atenção
recolho meus cacos
e deixo nos braços da canção
e vou dar uma volta
olho a minha volta
nada tem volta
volta
sábado, fevereiro 09, 2013
quarta-feira, janeiro 30, 2013
domingo, janeiro 27, 2013
Poema da saudade
Martha Medeiros
Em alguma outra vida,devemos ter feito algo muito grave,para sentirmos tanta saudade...Trancar o dedo numa porta doí.
Bater o queixo no chão doí.
Doí morder a língua,cólica doí, doí torcer o tornozelo.
Doí bater a cabeça na quina da mesa,carie doí,pedras nos rins também doí.
Mas o que mais doí é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma brincadeira de infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade de nós mesmo,o tempo não perdoá.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se Ama.
Saudade da pele,do cheiro,dos beijos.
Saudade da presença,e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ele no quarto,sem se verem,mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ele para a trabalho,mas sabiam-se onde.
Você podia ficar sem vê-lo,e ele sem vê-la,mas sabiam-se amanhã.
Contudo,quando o Amor de um acaba,ou torna-se menor no outro.
Sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber se ele continua fungando num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Se aprendeu a entrar na internet,se aprendeu a ter calma no trânsito.
Se continua preferindo cerveja a uísque(e qual a cerveja)
Se continua sorrindo com aqueles olhos apertados,e que sorriso lindo.
Será que ele continua cantando aquelas mesmas musicas tão bem(ao menos eu admirava)?
Será que ele continua fumando e se continua adorando Mac Donald's?
Será que ele continua não amando os livros,e ela cada vez mais?
E continua não gostando de dar longas caminhadas,e ela não assistindo televisão?
Será que ele continua gostando de filmes de ação,e ela de chorar em comédias.
Será que ela continua lendo os livros que já leu?
Será que ele continua tossindo cada vez que fuma?
Saber é não saber mesmo!!!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais longos,não saber como encontrar
tarefas que lhe cessem o pensamento.
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música,não saber como vencer a dor
de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ele está com outra,e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz,e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro,se ele está mais belo.
Saudade é nunca mais saber de quem se Ama e ainda assim doer.
Saudade é isso que senti(e sinto) enquanto estive escrevendo e o que você (deveria)
provavelmente estar sentido agora depois que acabou de ler.”
Quem inventou a distância nunca sofreu a dor de uma saudade!!!
sábado, janeiro 26, 2013
Onde Deus possa me ouvir
Sabe o que eu queria agora, meu bem?
Sair, chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo, um ombro
Onde eu desaguasse todo desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém
Sair, chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo, um ombro
Onde eu desaguasse todo desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém
Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender por que se agridem
Se empurram pr´um abismo
Se debatem, se combatem sem saber
Morar no interior do meu interior
Pra entender por que se agridem
Se empurram pr´um abismo
Se debatem, se combatem sem saber
Meu amor
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir
Minha dor
Eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui, pode sair
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir
Minha dor
Eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui, pode sair
Adeus.
sexta-feira, janeiro 25, 2013
Isso é só o começo
Lenine
Hoje me perguntaram o que é o amorNão soube responder...
E ele que antes tinha nome, CPF e endereço... virou só mais um substantivo abstrato sem rosto...
" O que não tem fim sempre acaba assim".
Isso é só o começo!
Aqui chegamos, enfim
A um ponto sem regresso
Ao começo do fim
De um longo e lento processo
Que se apressa a cada ano
Como um progresso insano
Que marcha pro retrocesso
E é só o começo
Estranhos dias vivemos
Dias de eventos extremos
E de excessos em excesso
Mas se com tudo que vemos
Os olhos viram do avesso
Outros eventos veremos
Outros extremos virão
Prepare seu coração
Que isso é só o começo
É só o começo
Isso é só o começo
É só o começo
Aqui chegamos, porém
Num evento diferente
Onde a gente se entretém
Um ao outro, frente a frente
Deixando um pouco ao fundo
O ambiente do mundo
Por esse aqui, entre a gente
É só o começo
Assim nesse clima quente
No espaço e tempo presente
Meu canto eu lanço, não meço
Minha rima eu arremesso
Pra que nada fique intacto
E tudo sinta o impacto
Da ação de cada canção
Preparem-se irmã, irmão
Que isso é só o começo.
Velhas preferências em novas referências
Como pode continuar a ser atraída pelo mesmo tipo de homem? Que isso? Quando se pensa que mudou, os mesmos vícios voltam, quando se acha que mudou mesmo, valendo, alguma coisa do passado vem despertar lembranças, ainda que as pessoas não sejam as mesmas. Gosto de cigarro na boca, cheiro de perfume barato impregnado-impregnando, pegada de homem... Desisto. Já era!
quinta-feira, dezembro 27, 2012
Jugendgedenken
Gottfreied Keller
Ich will spiegeln mich in jenen Tagen,
Die wie Lindenwipfelwehn entflohn,
Wo die Silbersaite, angeschlagen,
Klar, doch bebend, gab den ersten Ton,
Der mein Leben lang,
Erst heut noch, widerklang,
Ob die Saite längst zerrissen schon
Lembranças da juventude
(trad. Celeste Aída Galeão)
Quero espelhar-me naqueles dias
que fugiram com o balanço das folhas
em que a corda de prata, ao soar
claro, embora trinado, deu o primeiro tom
que durante a minha vida
e hoje ainda, ressoa
mesmo que a corda já esteja de há muito partida.
Verborgenheit
Mörike
Lass, o Welt, o lass mich sein!Locket nich mit Liebsgaben,
Lasst dies Herz alleine haben
Seine Wonne, seine Pein!
Recolhimento
(trad. Celeste Aída Galeão)
Deixa-me, mundo, deixa-me serNão me atraias com dons de amor
Deixa só a este coração ter
Suas delícias, sua dor.
Em nome
Em nome da tua ausência
Contruí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei.
(de A Casa, Sophia de Mello Breyner Andresen)
Contruí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei.
(de A Casa, Sophia de Mello Breyner Andresen)
sexta-feira, dezembro 14, 2012
A tarde de um fauno
Stéphane Mallarmé
L'après-midi d'un faune
(Eglogue - 1865-1975)
Ces nymphes, je les veux perpétuer.Si clair,
Leur incarnat léger, qu'il voltige dans l'air
Assoupi de sommeils touffus.Aimai-je un rêve?
Mon doute, amas de nuit ancienne, s'achève
En maint rameau subtil, qui, demeuré les vrais
Bois même, prouve, hélas! que bien seul je m'offrais
Pour triomphe la faute idéale de roses.Réfléchissons...
Leur incarnat léger, qu'il voltige dans l'air
Assoupi de sommeils touffus.Aimai-je un rêve?
Mon doute, amas de nuit ancienne, s'achève
En maint rameau subtil, qui, demeuré les vrais
Bois même, prouve, hélas! que bien seul je m'offrais
Pour triomphe la faute idéale de roses.Réfléchissons...
ou si les femmes dont tu gloses
Figurent un souhait de tes sens fabuleux!
Faune, l'illusion s'échappe des yeux bleus
Et froids, comme une source en pleurs, de la plus chaste:
Mais, l'autre tout soupirs, dis-tu qu'elle contraste
Comme brise du jour chaude dans ta toison?
Que non! par l'immobile et lasse
pâmoisonSuffoquant de chaleurs le matin frais s'il lutte,
Ne murmure point d'eau que ne verse
ma flûte
Au bosquet arrosé d'accords; et le seul vent
Hors des deux tuyaux prompt à s'exhaler avant
Qu'il disperse le son dans une pluie aride,
C'est, à l'horizon pas remué d'une ride
Le visible et serein souffle artificiel
De l'inspiration, qui regagne le ciel.
Figurent un souhait de tes sens fabuleux!
Faune, l'illusion s'échappe des yeux bleus
Et froids, comme une source en pleurs, de la plus chaste:
Mais, l'autre tout soupirs, dis-tu qu'elle contraste
Comme brise du jour chaude dans ta toison?
Que non! par l'immobile et lasse
pâmoisonSuffoquant de chaleurs le matin frais s'il lutte,
Ne murmure point d'eau que ne verse
ma flûte
Au bosquet arrosé d'accords; et le seul vent
Hors des deux tuyaux prompt à s'exhaler avant
Qu'il disperse le son dans une pluie aride,
C'est, à l'horizon pas remué d'une ride
Le visible et serein souffle artificiel
De l'inspiration, qui regagne le ciel.
O bords siciliens d'un calme marécage
Qu'à l'envi de soleils ma vanité
saccage
Tacite sous les fleurs d'étincelles,
CONTEZ«Que je coupais ici les creux roseaux domptés
» Par le talent; quand, sur l'or glauque de lointaines
» Verdures dédiant leur vigne à des fontaines,
» Ondoie une blancheur animale au repos:
» Et qu'au prélude lent où naissent les pipeaux
» Ce vol de cygnes, non! de naïades se sauve
» Ou plonge... »
Inerte, tout brûle dans l'heure fauve
Sans marquer par quel art ensemble détala
Trop d'hymen souhaité de qui cherche le la:
Alors m'éveillerai-je à la ferveur première,
Droit et seul, sous un flot antique de lumière,
Lys! et l'un de vous tous pour l'ingénuité.
Autre que ce doux rien par leur lèvre ébruité,
Le baiser, qui tout bas des perfides assure,
Mon sein, vierge de preuve, atteste une morsure
Mystérieuse, due à quelque auguste dent;
Mais, bast! arcane tel élut pour confident
Le jonc vaste et jumeau dont sous l'azur on joue:
Qui, détournant à soi le trouble de la joue,
Rêve, dans un solo long, que nous amusions
La beauté d'alentour par des confusions
Fausses entre elle-même et notre chant crédule;
Et de faire aussi haut que l'amour se module
Évanouir du songe ordinaire de dos
Ou de flanc pur suivis avec mes regards clos,
Une sonore, vaine et monotone ligne.
Tâche donc, instrument des fuites,
ô maligne
Syrinx, de refleurir aux lacs où tu m'attends!
Moi, de ma rumeur fier, je vais parler longtemps
Des déesses; et par d'idolâtres peintures
À leur ombre enlever encore des
ceintures:
Ainsi, quand des raisins j'ai sucé la
clarté,
Pour bannir un regret par ma feinte écarté,
Rieur, j'élève au ciel d'été la grappe vide
Et, soufflant dans ses peaux lumineuses, avide
D'ivresse, jusqu'au soir je regarde au travers.
ô maligne
Syrinx, de refleurir aux lacs où tu m'attends!
Moi, de ma rumeur fier, je vais parler longtemps
Des déesses; et par d'idolâtres peintures
À leur ombre enlever encore des
ceintures:
Ainsi, quand des raisins j'ai sucé la
clarté,
Pour bannir un regret par ma feinte écarté,
Rieur, j'élève au ciel d'été la grappe vide
Et, soufflant dans ses peaux lumineuses, avide
D'ivresse, jusqu'au soir je regarde au travers.
O nymphes, regonflons des SOUVENIRS divers.
"Mon oeil, trouant les joncs, dardait chaque encolure
Immortelle, qui noie en l'onde sa brûlure
Avec un cri de rage au ciel de la forêt;
Et le splendide bain de cheveux
disparaît
Dans les clartés et les frissons, ô pierreries!
J'accours; quand, à mes pieds, s'entrejoignent (meurtries
De la langueur goûtée à ce mal d'être deux)
Des dormeuses parmi leurs seuls bras hasardeux;
Je les ravis, sans les désenlacer,
et vole
À ce massif, haï par l'ombrage frivole,
De roses tarissant tout parfum au soleil,
Où notre ébat au jour consumé soit
pareil."
Je t'adore, courroux des vierges, ô délice
Farouche du sacré fardeau nu qui se glisse
Pour fuir ma lèvre en feu buvant, comme un éclair
Tressaille! la frayeur secrète de
la chair:
Des pieds de l'inhumaine au coeur de la timide
Qui délaisse à la fois une innocence, humide
De larmes folles ou de moins tristes
vapeurs."Mon crime, c'est d'avoir, gai de vaincre ces peurs
Traîtresses, divisé la touffe échevelée
De baisers que les dieux gardaient si bien mêlée:
Car, à peine j'allais cacher un rire
ardent
Sous les replis heureux d'une seule (gardant
Par un doigt simple, afin que sa candeur de plume
Se teignît à l'émoi de sa soeur qui s'allume,
La petite, naïve et ne rougissant pas:)
Que de mes bras, défaits par de vagues trépas,
Cette proie, à jamais ingrate se délivre
Sans pitié du sanglot dont j'étais encore ivre. »
Tant pis! vers le bonheur d'autres m'entraîneront
Par leur tresse nouée aux cornes de mon front:
Tu sais, ma passion, que, pourpre et déjà mûre,
Chaque grenade éclate et d'abeilles murmure;
Et notre sang, épris de qui le va saisir,
Coule pour tout l'essaim éternel
du désir.À l'heure où ce bois d'or et de cendres se teinte
Une fête s'exalte en la feuillée
éteinte:Etna! c'est parmi toi visité de
VénusSur ta lave posant tes talons ingénus,
Quand tonne une somme triste ou s'épuise la flamme.
Je tiens la reine!
Par leur tresse nouée aux cornes de mon front:
Tu sais, ma passion, que, pourpre et déjà mûre,
Chaque grenade éclate et d'abeilles murmure;
Et notre sang, épris de qui le va saisir,
Coule pour tout l'essaim éternel
du désir.À l'heure où ce bois d'or et de cendres se teinte
Une fête s'exalte en la feuillée
éteinte:Etna! c'est parmi toi visité de
VénusSur ta lave posant tes talons ingénus,
Quand tonne une somme triste ou s'épuise la flamme.
Je tiens la reine!
O sûr châtiment...
Non, mais l'âme
De paroles vacante et ce corps alourdi
Tard succombent au fier silence de midi:
Sans plus il faut dormir en l'oubli du blasphème,
Sur le sable altéré gisant et comme j'aime
Ouvrir ma bouche à l'astre
efficace des vins!
Non, mais l'âme
De paroles vacante et ce corps alourdi
Tard succombent au fier silence de midi:
Sans plus il faut dormir en l'oubli du blasphème,
Sur le sable altéré gisant et comme j'aime
Ouvrir ma bouche à l'astre
efficace des vins!
Couple, adieu; je vais voir l'ombre que tu devins.
A tarde de um fauno
(Écloga 1865-1875)
Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida,sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava
por triunfo,afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida,sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava
por triunfo,afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.
Quem sabe as mulheres que glosas
são configurações de anseios que possuis?
Repara na ilusão que emana dos azuis
e frios olhos,fonte em pranto, da mais
casta
Suspiros, toda, a outra - alegas que contrasta,
como brisa diurna e tépida que passa?
Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso - ameaça
a todo matinal frescor de suave fama
se uma fonte murmura, esta flauta a derrama
no vizinho silvedo, irrigando-o de acordes;
nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta avena que o som em chuva árida espalha,
e senão no horizonte, em sua calma sem falha,
o sereno bafor da pura inspiração,
visível, regressando ao céu, por ascensão.
Ó plagas sículas e calmas, da lagoa,
que saqueadas tem minha vaidade, à toa,
e tácita- no amor das flores destes páramos –DIZEI
"que aqui me achava em busca destes cálamos sonoros
quando além, por entre as brandas linhas
de ouro glauco, a fulgir nas fontes e nas vinhas,
eis ondeia uma alvura. animal em repouso;
mas que logo também, ao lento e langoroso
prelúdio linear da avena de cinabre
vôo, de cisnes não, de náiadas se abre."
A hora fulva que arde inerte não revela
a astúcia, de intenções de aliciação tão bela.
Sinto-me despertar sob um fervor de antanho,
onda antiga de luz envolvendo-me em banho,
eu, lírio, um dentre vós segundo a ingenuidade!
Mais que o nada tão doce, essa espontaneidade,
beijo, sussurro suave e soma de perfídia,
meu corpo, sem mais prova, atesta ainda, insídia,
uma oculta mordida augusta, de alto dente;
mas, vede, arcano tal tomou por confidente
o gêmeo junco, par que sob o azul se soa;
que recebendo em si o sôpro, logo entoa
e sonha, em solo longo e leve, que a beleza
em derredor está a mudar-se com presteza
dentro na confusão de si mesma e do canto;
e nas modulações altas de amor,entanto
evanescendo esvai-se apaga-se a teoria
clara, de dorsos e de flancos; ó magia
de uma sonora e vã monótona mesmice!
Frauta maligna, órgão de fugas, sem ledice,
vai, fístula, florir no lago e ali me aguarda.
Eu, cheio de rumor altivo, já me
tarda
falar de deusas; por idólatras pinturas,
de suas sombras irei tomar-lhes as cinturas.
Assim, quando ao racimo extraio-lhe a substância /sorvo
e contra a mágoa apuro a minha vigilância,
e rindo soergo no ar o já vazio cacho
e, na pele de luz assoprando, eu me
acho
- ébrio - capaz de então a tarde toda o olhar.
Outras RECORDAÇÕES, vamos, ninfas, lembrar
“Meus olhos entre o junco... além uma
figura
imortal que se banha e a cálida brancura
luminosa do corpo em onda leve imerge.
Sôbre o áureo esplendor dos cabelos converge
um claror e um fremir de fulva
pedraria!
Corro; mas a meus pés, jungidas na agonia
do langor
deste mal de serem dois em um,
vejo duas dormindo, em abraço
comum.
Como estavam tomei e trouxe a esta eminência
desamada da sombra e dela sem frequência;
aqui se esvai ao sol das rosas o perfume;
mas para o nosso embate a força aqui me assume."
Ó furor virginal, eu te adoro, ó concisa
fúria de corpo nu, fardo nu que desliza
fugindo ao lábio ardente e a refulgir livores
de ampla trepidação da carne em seus pavores!
E isso, da inumana à tímida que vê
já perdida a inocência e dos olhos
revê
uma lágrima louca ou um tanto menos triste.
"Meu crime foi querer, na fôrça que me assiste,
apartar dividir um tufo desgrenhado
de beijos e de amor, dos deuses bem guardado.
Na hora em que esconder eu ia o riso ardente
na feliz maciez de urna, só - e contente
procuro no condor de pluma em que
se agita
o sabor da emoção que vívida palpita
na sua ingênua irmã, pequena, que não cora
eis de meus braços que se esquecem foge fora
tal ingrata cruel, que na impiedade esfria
a estuosa ebriez em que me consumia."
Foi pena. Irei buscar alhures a
esperança
de em meus chavelhos ver, enastrada, uma trança.
Bem sabes, ó paixão, que rubras mui vermelhas
cada cereja abriu seu murmurar de abelhas.
E o nosso sangue vai, enviado em seu ensejo, percorrendo o pendor eterno do desejo.
Na hora em que de ouro e cinza este
bosque
se pinta logo em festa se exalta a folharia extinta.
Ó Etna, é junto a ti! Vênus vem pelos ares.
Leve na lava pousa ingênuos colcanhares
enquanto sonolento as chamas tens em
calma.
Tenho pois a rainha!
Ó dura pena...
A alma
de palavras vazia e o corpo em letargia
sucumbem afinal ao fero meio-dia.
Cumpre dormir assim, no olvido, de mansinho,
deitado nesta areia.
Ó que delicia ao vinho
a boca oferecer e a seu astro eficaz!
Par, adeus: Quero ver como ûa sombra se faz.
Belo Horizonte, 18.08.1959
[Nota do tradutor José Lourenço de Oliveira: "relida em 02.1963 e achada ruim"]
sábado, dezembro 08, 2012
E de repente me deu uma vontade estranha de viver...
Vou começar a escrever alguns posts pra marcar esta nova fase louca, porque, de fato, me deu uma estranha vontade de viver. Dia desses, assisti a um programa do Discovery, no qual a moça em tratamento dependia de antidepressivo, como eu - ou melhor, até menos do que eu, porque como minha psiquiatra diz, tomo 2 em dose cavalar - e tão cansada quanto, desistiu de tomar porque queria viver. Diferente de mim, a tal moça percebeu de imediato que essa medicação nos provoca mais do que os efeitos esperados, paradoxalmente, ela nos deixa sob controle, com isso, quero dizer, equilibrar ou mais, regular mesmo. É mais louco do que parece. De qualquer forma, resolvi desistir dos remédios também.
É muito chato viver mecanicamente com poucos choros e parcos risos, ver tudo tão racionalmente normal. Era realmente muito chato. Pior ainda é ser como sou, infinitamente querendo entender tudo. Por quê? É uma das minhas perguntas preferidas e isso me deixava mais inquieta. Dá pra entender, inquietação sem choro nem riso, sem qualquer reação física ou empenho em tentativa de descoberta? Não é por acaso que tava enlouquecendo. Não entendia tanta frieza, tanta incapacidade em mim de sentir algo há tempos e entendi o motivo de algumas das loucuras que fiz no desespero de me sentir viva.
É muito claro pra mim que não estava tentando me matar quando cortei o pulso, pois o fato de querer ver meu sangue correr foi uma tentativa de ver alguma vida dentro de mim, mesmo que aparentemente se esvaindo. Na verdade, nem sei como explicar direito, talvez precisasse de um PhD em Psicanálise (se é que isso existe) pra tentar entender tantos atos completamente fora de controle e aparentemente tão pensados e calculados e, ainda assim, tenho quase certeza de que não chegaria a nenhuma conclusão. A única conclusão temporária que tenho disso tudo é que por mais complicado que seja, é melhor viver com intensidade de dor e prazer. É legal chorar, se sentir sensível, à flor da pele. É bom ter noites de insônia, me permite colocar algumas leituras em dia, ouvir músicas novas, experimentar em meu eterno laboratório, o meu quarto. Assim, não perco os limites, se nunca os perdi antes, por que os perderia agora? Não há só vantagens, óbvio. As lembranças recalcadas insistem em vir à tona, mas não é de todo ruim também, me impõe mais limites que antes, sem me tirar as forças, a vontade de reexperimetar a vida. Claro que não é nada legal ter de controlar vontades incontroláveis, dói, mas a dor faz parte da vida. Posso conviver comigo e com meu pessimismo tão característico sem me destruir. Eu precisava me livrar da dor que me derrubou, por isso procurei ajuda, aceitei tantas medicações pesadas, mas tá bom, foi tempo mais que suficiente.
Tá na hora de inaugurar uma nova fase ao meu modo e já tomei algumas decisões: amanhã mesmo vou cortar os cabelos, aproveitar a moda dos curtíssimos e deixar as madeixas mais curtas ainda, além disso, tinha me prometido que até o final do ano resolveria quanto a fazer ou não uma tatuagem, ô duvidazinha cruel e, por anos, tão perseguidora! Cansei de brincar de tatoo de hena e desde o ano passado tô numa onda de, enfim, colocar uma definitiva, então, cheguei a uma resultado, como imaginava, tenho idade suficiente pra ter certeza do que quero e tatuagem é mais do que definitiva, é, sobretudo, significativa.
Bom, infelizmente, não vou poder me dar este tão esperado presente de natal, então, resolvi colocar um piercing Monroe. Sempre achei legal, mas como já tenho um de nariz, três brincos na orelha, além de um de cartilagem, achava que ficaria exagerado. Daí, num final de semanas desses, assisti a um especial da Amy Winehouse (algo catártico, aliás, digno de ser comentado em outro post) e vi que ela usava exatamente o piercing que quero acrescentar junto com o de nariz. Claro que, antes de destruída, os dois ficavam lindos no rosto dela, mas será que combinam com o meu? Não sei, só vou saber colocando, então, assim que descobrir respondo.
sexta-feira, dezembro 07, 2012
Lendo uma revista tola pra me entreter no consultório antes da terapia,
me encantei com este quarteto. Depois de horas de espera, foram os melhores
segundos do último ano e meio entre aquelas quatro paredes.
"Trago as chaves mais lúcidas do sonho
para te abrir caminhos inefáveis
e em trilhas só de pássaros sabidas
contigo andar nos mares e nas montanhas".
(Odylo Costa, "Soneto de Romaria", Cantiga incompleta)
quarta-feira, dezembro 05, 2012
É, eu confesso que não é exatamente a
realidade que eu esperava encontrar. Talvez isso mude. Talvez você pule esses
três ou quatro muros que nos separam e segure a minha mão, assim, ofegante, pra
nunca mais soltar. Talvez você ainda possa pular no rio e me salvar. Ou
talvez eu só precise de férias, um porre e um novo amor. Porque no fundo eu sei
que a realidade que eu sonhava afundou num copo de cachaça e virou utopia.
Caio Fernando Abreu
Tipo um baião
Não sei para que outra de história de amor a essa hora,
porém você diz que está tipo a fim de se jogar
de cara num romance assim,
tipo para a vida inteira.
E agora, eu não sei agora porquê não sei,
porque somente você não sei porquê,
somente agora você vem,
você vem pra enfeitar minha vida.
Diz que será tipo festa sem fim,
É São João, vejo tremeluzir seu vestido através da fogueira.
É carnaval e o seu vulto a sumir entre mil abadás na ladeira.
Não sei para que fui cantar para você a essa hora,
logo você que ignora o baião,
porém você tipo me adora mesmo assim
meio mané, por fora.
E agora eu não sei agora porquê,
não sei porque somente você,
não sei porque somente agora você vem.
Vem para embaralhar os meus dias
e ainda tem, em saraus, ao luar, meu coração,
que você sem pensar ora brinca em inflar,
ora esmaga igual, que nem fole de acordeão,
tipo assim num baião do Gonzaga.
Chico magnífico, como sempre. Música encantadoramente doce. Adorei!
Quase amores
Quase amores não existem. E não existem mesmo. Mas existem.
Tudo bem, você pode desconfiar de um quase corno. Mas, provavelmente, nunca
apertou a mão de um semi-gay. Ligeiramente grávidas são um desafio para a
ciência. De meio amigos também não há registros, porém para encontrar mui
amigos, chute uma lata e surgirão como ratos. Mas quase amor existe.
Quase amor é aquele ensejo de romance que surgiu com sabor
de sorvete de baunilha. Você foi dar uma colherada com gosto e SPLASH! Ao levar
o prazer até a boca, o doce escorreu e espatifou, melecando sua calça jeans.
Todo mundo passa por isso, quer queira, quer não. Histórias de quase amor não
lotam pré-estreias em Los Angeles, mas na vida sem bilheterias goleiam
impiedosamente os contos de amor concreto.
Um amor que não passa do primeiro beijo porque o cara é noivo, é um quase amor. Um romance que não chegou no sexo, pois uma das partes embarcou com urgência para Londres sem aviso prévio, é quase amor também. Visualiza a cena: você gosta de uma garota comprometida e pede a ela que não suba no ônibus. Ou será o fim. Ela titubeia, faz bem-me-quer, mas segura o corrimão, ergue o pé direito e te olha com beiço de despedida. Pronto, outro quase amor saindo quentinho. Uns duram cinco anos, outros cinco meses. Raros, cinco dias. Contudo – de fato e amargamente – quase amores se dão como formigas em pote de mel.
E se engana quem pensa que os quase amores são aqueles impossíveis ou proibidos, do tipo Janet Dailey. Amores por um triz têm motivos circunstanciais. Amor que é proibido, mas os dois se correspondem, já é amor completo, mesmo que imperfeito. Quase amor é quando um dos lados se doa pela metade, quando tanto. Aí é pretérito. Bem mais que imperfeito.
Um amor que não passa do primeiro beijo porque o cara é noivo, é um quase amor. Um romance que não chegou no sexo, pois uma das partes embarcou com urgência para Londres sem aviso prévio, é quase amor também. Visualiza a cena: você gosta de uma garota comprometida e pede a ela que não suba no ônibus. Ou será o fim. Ela titubeia, faz bem-me-quer, mas segura o corrimão, ergue o pé direito e te olha com beiço de despedida. Pronto, outro quase amor saindo quentinho. Uns duram cinco anos, outros cinco meses. Raros, cinco dias. Contudo – de fato e amargamente – quase amores se dão como formigas em pote de mel.
E se engana quem pensa que os quase amores são aqueles impossíveis ou proibidos, do tipo Janet Dailey. Amores por um triz têm motivos circunstanciais. Amor que é proibido, mas os dois se correspondem, já é amor completo, mesmo que imperfeito. Quase amor é quando um dos lados se doa pela metade, quando tanto. Aí é pretérito. Bem mais que imperfeito.
Por isso quase amores existem e não existem. Talvez não
tivera beijo, ou não houve sexo, quiçá um abraço de urso. Quase amores são
cheios da falta de café na cama, juras de amor eterno, cena de ciúme, mordida
no queixo, lutinha no carpete, banho de espuma, briga na casa da sogra,
despedida em rodoviária, confusão de chinelos, chimarrão no meio-fio, troca de
alianças, beijo na testa, orgasmo com choro e velhice compartilhada.
Quase amor é um lugar estranho e ao mesmo tempo familiar.
Aconchegante e inóspito. Enérgico e gélido. É como quando você tem um déjà vu
ao entrar numa rua ladrilhada dessas de cidade histórica. Um lugar aonde você
jamais esteve, porém consulta sua memória rígida buscando reconhecer árvores,
calçadas e telhados. Uma saudade abstrata pressiona o peito. E quase dói.
***
Texto do
livro novo do Gabito Nunes "Sempre Chove no Meu Carnaval”. Este
texto foi tirado de um blog chamado “Amar-te-ei até o tédio”. É o tipo de
leitura divertida e interessante, adoro e recomendo.
Loucamente normal
E depois de tanto tempo, depois que ele desistiu de me procurar, eu acho, surgem as fagulhas. Ele diz que se aquietou, eu até poderia acreditar se fosse outra pessoa, mas ele? Mas o que mais me surpreendeu fui eu mesma, desde quando ele voltou a ser opção? Foram tantos altos e baixos no decorrer destes anos que sei lá, nem sei o que me deu ou o que deu nele. Será que ainda rola alguma coisa? Espero que não, ou sim, não sei. Como sempre, ele faz a minha cabeça dar voltas apesar de toda aquela simplicidade e hoje senti o drama. Antes ele me comia com os olhos, não mudou muito, embora ele esteja bem mais centrado. É legal ver como alguém que eu pensava que nunca ia mudar, mudou tanto, isso é fato, talvez possa passar a considerá-lo como amigo.
Sei que só chamo de amigo àqueles que são capazes de me entender, ou quase porque isso é impossível, mas já tá chegando perto. Ele passa bem longe de entender o que eu digo, a maioria das vezes, o que tanto faz, o importante é que ele sempre está disposto a ouvir e, às vezes, tudo o que se precisa é ser ouvida. Além disso, dou boas risadas com aquela tentativa de auto-ajuda frustrante, não digo mais sem noção porque ele construiu um certo carinho em mim.
Não esperava mais por isso, foram tantas as decepções. Aliás, parte da escolha do meu ex se deveu a frustrante passagem dele pela minha vida. Confesso que num primeiro momento era tentador olhar pra trás, depois nem fazia falta e agora, sei lá porquê ouvir aquela voz fez tão bem. Este papo de que sou uma mulher bonita, atraente, inteligente... ah, tô cansada, sei o que é ser gentil com os outros, meus ex me ensinaram a ser delicada e agradável pra dar fora (o que foi fundamental pra corrigir tantas redações ruins e conseguir, ainda assim, ser querida pela maioria). A gentileza faz parte de mim, mesmo quando eu não quero, por incrível que pareça.
E falando em elogios, é incrível como depois de tudo ainda sou tão elogiada. Perdi as contas de quantas vezes ouvi o adjetivo linda ontem, claro que rolaram alguns bem vulgares também, mas no geral, foi tão bom. Não acho que esteja na minha melhor fase e conseguir chamar atenção mesmo assim é uma dádiva. É muito bom ainda ser confundida com aluna, ver as pessoas me julgarem muito mais nova... Me aproximar dos 30 com jeitinho de adolescente é uma benção. Tive tantas fases complicadas quando mais nova e se puder comparar, certamente estou muito melhor, me acho mais bonita, embora as marcas de todas as loucuras de antes continuem. Fora isso, tá tudo bem tranquilo.
Não tenho essas loucuras de se pudesse voltar atrás..., isso é pura tolice, não mudaria nada na minha vida, nem mesmo o que eu fiz de supostamente errado, na verdade, não gostaria de ter passado por muitas das coisas que passei, mas só hoje posso ver isso, tudo o que fiz era o que queria no momento, mesmo sabendo que tava errado. O problema é a prepotência de achar que sempre se é capaz de lidar com as consequências, quem me dera, a pior parte é aguentar tudo, não é fácil acordar assustada ou chorando à noite e isso quando consigo ter uma noite de sono à base de calmante, é complicado me desdobrar no trabalho e em todos os outros lugares que frequento e ter que sair de fininho quando sou convidada pra sair, ou mesmo só, não assistir filmes ou ouvir algumas músicas que amo por medo de trazer à tona tantos traumas recalcados, assim, na melhor das hipóteses, o jeito é ir levando.
É óbvio, tem muitas coisas boas acontecendo, não dá pra virar as costas pra tanto, também é muita ingratidão reclamar, eu sei, mas eu é que sei o que é esconder as lágrimas, sou profissional nisso. As pessoas veem tanta beleza por fora, são tantos olhares de desejo de todos os lugares à minha volta, pena que só conseguem ver o exterior. Por dentro... Que desastre!
Meus cabelos estão mais lindos do que nunca, sem falsa modéstia, claro, nada de manchas na pele, meu rosto está bem mais corado, ganhei peso suficiente pra dizer que estou saudável, externamente, a única marca visível é a do meu pulso esquerdo, fácil de esconder, aliás; internamente, a situação é indescritível. Sobretudo agora que resolvi interromper meu tratamento, é uma enxaqueca desgraçada, mudanças súbitas de humor e tantas outras porcarias, mas graças a Deus, nada que me fizesse perder completamente o controle. Vou provar pra psiquiatra que não sou tão louca quanto pareço.
Ela ficou com raiva porque me neguei a tomar antipsicótico (só se for pra eu enlouquecer de vez), quando souber que parei de tomar tudo vai ser um caos. Mas também, quando a própria médica diz que não faço coisas normais, dá vontade de dizer um monte de desaforo, já aceitei ser chamada de excêntrica, estranha e todos os outros vários adjetivos que costumam utilizar pra me caracterizar, porque não me ofendem, de verdade, agora, minha psiquiatra dizer que tenho transtorno, que não tenho feito coisas normais, isso sim é ofensa. Não é frase clichê, é uma grande verdade, ninguém é normal hoje em dia, porque eu, uma depressiva louca, seria diferente da maioria? A única diferença é o fato de eu ter passado por um diagnóstico, o que é tão fácil burlar.
Ah, cansei, minha cabeça ferve quando falo disso, sei que a minha loucura não foge da normalidade e é isso que importa. O que eu penso de mim é mais importante, os outros, que achem outro assunto.
sexta-feira, outubro 19, 2012
Seria cômico se não fosse trágico
E, no final das contas, a namorada dele foi quem conseguiu me compreender. Alguém naquela relação aparentemente tem um pouco de bom senso. rsrs
C'est la vie!
C'est la vie!
quarta-feira, outubro 17, 2012
Hoje
E mais uma amiga grávida, além de outras 2 e da minha prima. O tempo passa, todo mundo se apaixona, se amarra, se casa, engravida e eu... Só fazendo merda, como sempre. Não é que eu queira estar em um relacionamento, é bem óbvio que tô meio traumatizada e é até bom ficar reclusa por um tempo. Analisei um pouco a minha vida e percebi que parece que sempre estive dentro de algum tipo de relacionamento, eu meio que vivi a vida de cada um deles e isso até explica porque a minha vida acabou quando terminei com o ex.
Ficar só está sendo uma forma interessante de me conhecer e é a primeira vez na vida que, de fato, fico só e não sinto a menor falta de ninguém, aliás, tenho evitado pra caramba, pensar em relacionamento me lembra preocupação, aventura então, completamente fora de cogitação. Aff, mudei tanto que nem me reconheço! As coisas que mais gostava acabam sendo as que mais abomino agora. Sou puro paradoxo! Oscilo a todo tempo, uma hora quero, na outra pulo fora. Uma hora tô cansada, segundos depois, sou dominada pela insônia. Inércia é meu apelido, vivo cansada. Depressão é uma desgraça mesmo. Sei que toda doença é chata, mas depressão é uma merda, tem horas que acho que vou pirar, quero rir, quero ficar feliz e nem consigo sair da cama.
No outro dia, acordo (depois de alguns remedinhos, claro) me perguntando, que dia é hoje? Graças à tecnologia, meu celular me localiza. Aí vem aquela coisa, peraí, eu sonhei, aconteceu mesmo, fiz, falei? Não sei. Tá tudo tão confuso. Penso, penso, penso, ah, deixa pra lá, tem coisas que nem vale a pena pensar. É melhor me preocupar em como encontrar disposição pra fazer o que tenho que fazer. Quanta preocupação! Não quero sair de casa, quanto mais escolher a roupa que tenho que vestir, me arrumar, correr pra mamãe não perceber que eu não comi nada. É, ter fome é uma regalia, mas fiz um propósito e pretendo cumpri-lo, tanto que hoje almocei comida, por mais estranho que pareça não sei quando comi pela última vez, já que, geralmente, empurro alguns pães de queijo com coca-cola pra não ficar de estômago vazio e pronto. Pode não parecer tão saudável, mas tá funcionando, engordei, então, funciona.
Assim parece que o tempo passa mais fácil, vou matando as atividades aos poucos, com certas dificuldades, sonhando com a minha cama, mas, no fim, não tenho muito de que reclamar. Trabalho e ganho relativamente bem para o esforço que faço, pago minhas contas, meu tratamento, vou levando. Lembro que antes tava super nervosa com medo de uma crise chata quando voltasse a trabalhar, um dos maiores medos de voltar a ter uma vida pública era essa super exposição, as pessoas são tão curiosas que chega a incomodar, mas foi bem mais tranquilo do que imaginei.
Na verdade, até me ajudou bastante, me sinto viva em sala de aula. É incrível como dizem que estou melhor, mais bonita, mais confiante. Interessante como as pessoas se importam com as aparências e em outros momentos, eu certamente reclamaria, agora não, faz bem pro ego e eu tô precisando. A vida precisa voltar a ter sentido pra mim, pelo que eu represento pra mim mesma independente dos outros. Nada nessa vida é por acaso, nada é coincidência, até o salmista dizia que foi bom ter sido castigado, hoje sei bem porquê. A dor nos ensina, insistir no que não é pra ser, é burrice, é pedir pra sofrer mais. Dói, demora pra caramba, às vezes parece até que é impossível sobreviver a tanta dor, mas em algum momento se encontra um outro caminho.
Lembro de uma vez dizer pro meu orientador que não sabia o que fazer na minha dissertação, imagina, uma pesquisa que vinha sendo construída há anos, era impossível não ter nada pra dizer. Então, com todo aquela calma tão característica, ele me olhou e disse, podes seguir vários caminhos, te acalma e escolhe um. Nossa, como isso faz sentido pra tudo. Por que a gente tem mania de complicar tudo? Minha vida virou de cabeça pra baixo, cheguei no fundo do poço e cavei mais um pouco (isso pra ser eufêmica), mas tô viva, impressionantemente saudável, com algumas cicatrizes, óbvio, mas bem mais experiente, mais sensível, sensata. Deus sabe o que faz, ou melhor, o que Ele permite que aconteça e, como disse ao meu pastor, pessoas como eu precisam apanhar muito pra entender coisas fundamentais e começar a ter tranquilidade, estabilidade, pra olhar com tédio e perspicácia o que não faz bem, pra aproveitar as coisas mais simples e tão essenciais.
Infelizmente, trago marcas bem difíceis, cicatrizes muito profundas e, por vezes, extremamente visíveis, mas será que não é isso que faz de mim o que sou e não o que era? Lamentar apenas não resolve nada, olhar as marcas só traz toda a dor de volta, não é disso que preciso. Preciso focar no que é importante, no que acrescenta e faz bem. Não lamento nada do que aconteceu, não faria nada diferente porque era o que queria naquele momento, errei, me arrependi, me decepcionei, como qualquer ser humano normal, o importante é o que vou fazer disso daqui pra frente.
Não sei mais o que quero, do que gosto, nem quem sou, mas sei bem o que não quero, o que não gosto e o que fui e isso vale tudo. Isso é toda minha vida. Pra quê tentar encontrar sentido? Basta viver, o meu caminho foi traçado por Deus, não por mim, só preciso seguir em frente e entender o que Ele quer de mim. Simples assim.
É, tô chegando aos 48kg, tô bem mais fofinha! Na verdade, não sei nem o que dizer, ou melhor, o que sentir. Será que ainda sei o que é sentir? Não senti a lâmina no meu pulso, só conseguia ver o sangue no meu lençol; da outra vez, também não senti nada, me achava bem lúcida embora na emergência tenham dito que estava à beira de uma overdose depois de 14 comprimidos de calmante.
No mais, estou bem, é o que digo pra todo mundo. Escondendo as cicatrizes, ninguém nota, nem eu.
sexta-feira, outubro 12, 2012
Tolices do dia a dia
Depois de tanto tempo longe do blog, fiquei com tanta coisa pra escrever... Dentre todas, pra mim, essa não pode passar. Não é que uma dessas criaturas que fez questão de se aproximar de mim no passado (porque só pra lembrar, não vou atrás de ninguém), fez questão de dizer que não lembrava de mim? Como assim?
Sempre soube que nos encontraríamos por aí, de alguma forma nos esbarraríamos pelas escolas (no sentido literal) da vida, enfim, coisas da profissão, mas esta era a atitude mais inesperada de todas. Ah, é que eu conheço tanta gente que eu nem me lembro de você. Que cara de pau, tava na cara que ele lembrava e tava tentando disfarçar. Mas quer saber, não importa, não sou vingativa, nem pretendo fazer nada contra ele, mas se a vida me ensinou alguma coisa foi que quem ri por último, ri melhor.
Resposta
Que tipo de amiga eu sou? Aquela que fala a verdade, mesmo que doa em mim e no outro. Agora, se quer pousar de bom moço apaixonado, problema teu, como dizias, passado é algo que temos que carregar, seja ele bom ou ruim, carrego o meu, então, tenha coragem de carregar o teu. Machucar as pessoas, passar por cima delas pra chegar onde quer não é uma característica exclusivamente tua, pode ter certeza.
Não sou do tipo que esconde ou mente, até porque já faz tanto tempo, pra quê desenterrar? Eu só precisava desabafar, foi isso que fiz, sem mentiras, apenas com alguns eufemismos por consideração, algo que alguém ou alguéns esqueceram de ter por mim.
De qualquer forma, nada ficou resolvido, nada mesmo, mas era de se esperar. Algumas pessoas demoram um pouco mais para amadurecer.
terça-feira, outubro 09, 2012
Mais passado... Aff!!!
Passou rasgando pela garganta, mas passou. Tô, como sempre, tentando entender o incompreensível, grande busca vã. Acho que deveria estar cansada de tentar, então, por que continuo? Não sei. Só sei que não gosto de inimizade, de mágoa. Só quero ficar bem, quero que ele esteja bem também, já que fez mais parte da minha vida do que deveria.
A escolha foi dele, eu que lide com as consequências, foi sempre assim enquanto estivemos juntos, por que seria diferente agora? Eu deveria saber. Não importa se eu concordo ou não, não importa quem é ela ou o que fez, simplesmente era pra ser ela, questionar o quê? Nada acontece por acaso na minha vida, ele não foi acaso, todo o desastre também não foi por acaso. Deus sabe o que faz e isso está mais claro que nunca.
Se guardo mágoas, não sei, tenho certeza das feridas que ele deixou, mas há algum tempo meu mundo deixou de girar em torno dele, pela primeira vez me senti um pouco à vontade pra conversar, pra retomar alguma coisa, qualquer que seja, desde que haja certa distancia. Era só isso, mas precisava ele me questionar, precisava questionar minha dor, claro, ele é sempre o ponto de referência mesmo.
O que quer dizer
verdadeiro ou falso? É só uma opinião partindo
de um ponto de referência, que, não por acaso, é ele mesmo novamente.
Eu
tenho o direito de falar o que quero pra eu quem quiser, principalmente o que me
afeta, porque essa é a única forma que encontrei pra aliviar toda essa pressão
que é a minha vida emocional. Há anos faço isso, por que incomoda tanto? Talvez
porque a minha verdade não seja a verdade dele. Não é óbvio que
quando se apanha a dor é bem pior do que a de quem bate? Já dizia meu pai:
quem bate esquece, quem apanha lembra. É muito fácil dizer que está tudo bem, que
é passado, quando fui eu quem teve de lidar com os destroços mesmo, remontar cada
ínfimo pedacinho arrancado.
Fui
eu que sofri sozinha, fui eu quem sofreu a humilhação de ser traída e
ter de ficar calada por não suportar a posição de vítima, de
coitadinha diante dos outros, como ela fez, aliás. Fui eu que me afastei pra
que ele pudesse ser feliz com a pessoa que escolheu, sem que visse o que me causou...
e como doeu... só eu sei. Qual é a verdade? A minha é a de que foi ele quem nos
expôs pra todo mundo andando com ela por aí, enquanto eu fazia
vista grossa pra tudo, dizia que tava infeliz e pedia, ou melhor, implorava pra
resolvermos de uma vez, mas até isso é culpa minha, ao que parece. Depois de
tudo, errei mais uma vez.
É
proibido dizer o que se sente? Me desculpe, me desculpe mesmo, mas eu não
sabia, nem era essa a intenção. Só queria sair de cena calada, pensava
que estava o ajudando. Já que ninguém podia me ajudar, pelo menos ele ficaria
bem, um de nós deveria ficar, não?
Parei
um pouco e foi rápido pra eu perceber que tudo não passava de um grande
erro, que há muito tempo não tínhamos nada a ver. Era a vez dela, quando
acaba, acaba, não há nada a se fazer, é só seguir em frente, diziam
todos, o tempo ajuda (embora eu não ache que ele possa tanto), e agora,
depois de um ano, tive certeza, tive de reagir pra cuidar do que sobrou.
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