sexta-feira, junho 06, 2008

"Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni"

terça-feira, junho 03, 2008

Nada

Olhares brevemente trocados. Expressões por pura polidez, frias e distantes. Eis a situação atual. Novo jogo? Os tempos de outrora foram apagados. Suas expressões paracem-me indecifráveis. Eu prendi todos os olhares como o esperado, menos um, o único que me importava, o único que não se importava. Depois de todo esmero do creme nos cabelos, do perfume nos pontos estratégicos de circulação, da escolha meticulosa das bijuterias, do vestido sensual e discreta... nada.

Ele andava ao meu redor, distância de alguns pequenos passos. Eu, sentada, de cabeça baixa e aparentemente concentradíssima na íntima tinta vermelha sobre os garranchos a minha frente, ouvia cuidadosa o som da mesma voz que tantas vezes passeou em meus ouvidos enquanto brincava com o meu sorriso, arrepiando pele, poros e pensamentos. A mesma voz, mas em tom distinto. Dirigida a mim, a voz era mais grave, mais máscula, mais obscena. Agora tão distante, o som é quase irreconhecível. Oi! É tudo o que tem a me dizer? O costumeiro beijo na testa e de volta ao trabalho.

Eu voei baixo naquela cadeira desconfortável, naquele espaço opressivo que eu suporto por questões de sobrevivência. Por instinto eu voei, eu fugi daquelas palavras confusas dos papéis dispersos na mesa, tentando em vão achar qualquer pista despejada naqueles míseros segundos precedentes. Nada.

Nada ao redor, em volta ou dentro de mim. O barulho de vozes dissonantes se espalha, meus olhos parecem despertar. É ele. É ele novamente, tentando roubar minha atenção mesmo não se dirigindo a mim, eu o conheço. Desmotivada volto os olhos para os papéis, nem o vi ir. Deixa pra lá. Coloquei minha capa obscura de gelo, me cobri de solidão e continuei a tarefa de esquecê-lo, mas como dizia meu sábio provérbio: esquecer é o esforço vão de tentar apagar as lembranças tatuadas na alma.

Só mais alguns minutos e a tortura acaba.

Tô indo embora. Eu o vi virar as costas, fechar a porta e me esquecer.

É tudo que restou, nada...

sexta-feira, maio 23, 2008

De volta ao passado...

É, esta sou eu, dando o braço a torcer, admitindo erros que não cometi pra trazer tudo de volta. Não é isso que é a vida? Pelo menos é a minha vida. A vida de um irreconhecível ser humano dotado de um estranho prazer pela tempestade, pelos labirintos universais em busca do Minotauro faminto. Quem disse que precisa haver uma lógica nisso tudo? Não há lógica em mim, nem em nada ou ninguém.
Se eu refaço o caminho, posso novamente desfazê-lo e agora sem maiores prejuízos. Cada grão de areia me ensinou a difícil tarefa de dar os primeiros passos sozinha e eu merecia. Eu precisava ficar só pra aprender a estar acompanhada. E mesmo que tudo volte a ser como era antes, eu já guardei o meu fio de Ariadne.

Modinha

Cecília Meireles

Tuas palavras antigas
Deixei-as todas, deixei-as,
Junto com as minhas cantigas.
Desenhadas nas areias.

Tantos sóis e tantas luas
Brilharam sobre essas linhas,
Das cantigas — que eram tuas —
Das palavras — que eram minhas!


O mar, de língua sonora,
Sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora:
Que o resto é pouco e apagado



domingo, março 16, 2008

Kuroi namida

Asu nante konai you nito negatta yoru kazoekirenai
Yume mo ai mo nakushi ame ni utareta mama naiteru… Kasaritsukenai de kono mama no watashi de ikite yukutame
Nani ga hitsuyou
Jibun sae shinjirezu nani wo shinjitara ii no

Kotae wa chikasugite mienai


Kuroi namida nagasu

Watashi ni wa nani mo nakute kanashisugite
Kotoba ni sae nara nakute

Karadajuu ga itami dashite

Taerarenai hitori dewa


Yonaka ni nakitsukarete egaita jibun janai jibun no kao
Yowasa wo kakushita mama egao wo tsukuru no wa yameyou…

Kasaritsukenai de ikiteyuku koto wa kono yo de ichiban

Muzukashi koto?

Anata kara morau nara katachi no nai mono ga ii
Kowareru mono wa mou iranai

Kuroi namida nagashi sakendemo
Shirame kao de ashita wa kite
Onaji itami ni butsukaru
Sonna hibi wo tsuzukeru nara
Tooku kiete shimaitai
Wagamama to wakattemo

Kuroi namida nagasu
Watashi ni wa nani mo nakute kanashisugite
Kotoba ni sae nara nakute
Karadajuu ga itami dashite

Kuroi namida nagashi sakendemo
Shirame kao de ashita wa kite
Onaji itami ni butsukaru
Sonna hibi wo tsuzukeru nara
Tooku kiete shimaitai
Wagamama to wakattemo

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

"É o amor e não o tempo que cura nossa dor. Pessoas especiais que passam por nossas vidas, não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Insônia de um século lapidar

Não por acaso as primeiras postagens do ano. Pensava que criaria expectativas, que as mudanças aconteceriam, mas que nada, tudo pareceu tão igual. Os dias agora passam tão depressa e a pior coisa é esta estabilidade.
Gosto da mudança, do inesperado, do surpreendente. Mentiria se dissesse que não houve nada de diferente, porque houve sim, mas é o tipo de coisa que ainda não consegui definir se é bom ou ruim.

Eu perdi o equilíbrio, estive a um fio da queda e mesmo não caindo, senti a dor, o gosto do sangue na minha boca. Mesmo assim, a vida não se esvaiu, eu resisto apesar de tudo. Era o melhor de mim, era o fôlego, era o que fazia o meu sangue correr.
Não vou mais lamentar nada, a dor passou. Esses tremores são apenas vertigens provocadas pela insistência em olhar pra trás, porque tudo ainda parece igual mesmo sendo tão diferente.
Passou, agora é hora de seguir em frente. Se as mudanças não aconteceram, eu mudo pra que elas aconteçam.


insônia de um século lapidar

uma inscrição em seu túmulo

uma data de dígitos quase ilegíveis

[não era assim que tinha de ser?]
ar habitado por esta escrita

corroendo pedra & pensamento

uma fuligem por herança
agora fatalmente te respiramos

página dobrada

sufocada no esquecimento

um tempo asqueroso a pronunciar-se
numa vertigem em seu halo funesto

[nunca soubemos ao certo

o que esse amor quis lapidar]


benoni araujo

sexta-feira, novembro 23, 2007

De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos.
De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que
Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n'água.
(Hilda Hist)

sábado, novembro 10, 2007

Um mar sem ondas

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
(Miguel Torga)

segunda-feira, outubro 29, 2007

Amanhã

Que me importa ouvir o que os outros dizem de ti, se eu sei que amanhã o teu sorriso vai florescer pra mim novamente. Que me importa o que dizem, se mesmo sabendo que é tudo verdade, tu sempre retorna pros meus braços. Que falem, pouco me importa. Que me chamem de tola ou coisa pior. Competir tem sua graça, eu sei bem.
Sei bem que amanhã tudo se acalma, que as tuas mentiras tão óbvias vão me acalentar, me deixar mais feliz pro resto do dia, ou pro resto da semana, ou pra um dia qualquer, arbitrariamente escolhido por ti. Que seja esse então o melhor de todos os meus dias e mesmo efêmero, que seja completo. Que comporte a imensidão do meu desejo na compleição do teu corpo e da volúpia transida, que se crie a necessidade insaciável do reencontro.

sábado, outubro 20, 2007

Não sei se é amor que tens

Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
(...)
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?
(Ricardo Reis)

terça-feira, outubro 02, 2007

Eu acho que devia entrar no lago, mas não posso. Eu ainda não estou pronta. Oh, que desespero! Esse coração que nada acalma. Em tudo que eu quis ser, eu sou só a metade. Nem amar eu posso. É tudo vaidade. Eu ouço o que você me diz, não estou surda, tenho ouvidos, mas o que é que isso quer dizer? Pode ser que eu esteja dormindo e que ninguém vá me acordar, e pode ser que eu seja dessas que fazem um mal negócio, só para ter um teto em cima da cabeça. E pode ser que eu engane a mim mesma e feche os olhos.
(Bertolt Brecht - Na selva das cidades)

segunda-feira, setembro 24, 2007

Ária amaríssima de um instante

Tempo coagulado, um dia fui descanso e pastoreio. Um dia
Tudo era eu, bulbo que seduzia, goela clarividente
Uivo gordo viscoso, uivei entre as parreiras, uivei
Porque sabia deste AGORA,
Que a cadela do Tempo me roia, ia roer, rosnava me roendo
Cadela-tempo, tu e eu... que contorno de nada, que coisa ida
Nossa dúplice aventura...
(Hilda Hist)

quinta-feira, agosto 23, 2007

Eu-Florbela

O meu talento! De que me tem servido? Não troxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequena esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que não me tenha feito mal. Talvez culpa minha, talvez... O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de que!

quarta-feira, agosto 15, 2007

Tão próximo do meu niver e nada de interessante pra contar, desde que lembrem acho que já é o suficiente. :)
Na verdade até que tem acontecido coisas fascinantes, outras nem tanto. A vida ou sei lá o que tem me surpreendido a cada passo e talvez essa seja a graça de acordar todos os dias, mesmo sabendo mais ou menos o que vai acontecer. Ando uma mescla de tristeza e felicidade, o constante jogo de opostos de que sou feita. Apesar de tudo, minhas músicas e meus poemas têm me feito a companhia necessária e isso já é o suficiente.

A OUTRA
Los Hermanos

Paz, eu quero paz
já me cansei de ser a última a saber de ti
se todo mundo sabe quem te faz chegar mais tarde
eu já cansei de imaginar você com ela
diz pra mim se vale a pena, amor
a gente ria tanto desses nossos desencontros
mas você passou do ponto, e agora já não sei mais.

Eu quero paz
quero dançar com outro par pra variar, amor
não dá mais pra fingir que ainda não vi
as cicatrizes que ela fez
se desta vez ela é senhora desse amor
pois vá embora, por favor
que não demora pra essa dor... sangrar.


segunda-feira, julho 23, 2007

Depositei nas mãos dele a flor mais bela, cultivada durante anos para ser colhida. O castelo que construí resiste ao tempo tempestuoso, à distância ventando violenta. A base parece ruir, mas resiste. A calmaria virá, a primavera voltará doce e perfumada. O olhar atrás dos óculos escuros diz muito embora congele silenciosamente meu corpo todo que treme dos pés a cabeça quando ele toca. A indiferença impõe os metros de distância que nos separam a centímetros fazendo o inverno mais insupotável, agora neva, as entranhas congelam, as lágrimas saem pretrificadas, quase imperceptíveis na geada constante.
À espera da primavera os dias rastejam inconscientes do estrago infligido ao castelo de areia que construí e que ele derruba com tanto prazer e suor a cada toque lascivo. Eu preferi o vilão ao príncipe, devo suportar as consequências. O vândalo reaparece inesperadamente, como na primeira vez, se instala grosseiramente e ainda debocha da minha fragilidade. Ele goza das minhas convicções e se vai. Mas fazer o quê se ele traz a vida em si, se torna o castelo em festa e afasta o inverno solitário.
Eu sorvo a fonte até o último gole, me preparando para hibernar quando ele se for, tento resistir às mentiras que impõe tão bem camufladas em sua pele de leite e mel. Ele sempre traz delicadamente o sol e faz renascer todo o desejo congelado pelo tempo, me queima a pele e aplica a conta gotas a vida esperada durante toda uma estação cruel.
Ao chegar, anjo melífluo encanta desmesuradamente, me faz morrer em frente ao mar calmo. Ao sair, carrasco áspero castiga desmedidamente ao tom de uma voz amarga vinda de não sei que abismo para lançar de vez às masmorras, sabendo que só ele é capaz de abrir os cadeados das correntes impostas.
É frio e escuro. Ele voltará, sempre volta.

sábado, junho 30, 2007

"Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida."

"Que engraçado o ser humano, deseja algo por tanto tempo que quando tem não sabe o que fazer". Isso foi o que eu ouvi de uma pessoa que há uns cinco anos atrás era o meu deus grego, minha paixão platônica ou qualquer outro termo encontrado no momento. Realmente, não deixa de ser uma verdade, há reações totalmente inesperadas, desculpe-me, mas não sei o que dizer. Depois de todo esse tempo, eu mudei bastante ou pelo menos o suficiente para repensar se ainda o quero com a mesma força de antes. Não dá pra deixar de constatar todas as reações físicas por ele provocadas. Quando conversamos eu tremia dos pés a cabeça. É, parece mentira, entretanto eu senti até minhas pernas tremerem e isso era bem visível.
Tudo ainda parece irreal, parece que vou acordar a qualquer momento, porque é novelesco demais pra ser verdade. Como alguém como ele vai olhar pra mim? (Olha essa auto estima, não tenho mais idade pra essas coisas!). Voltei a ser a mesma menininha confusa e tola de antes? A mesma menininha de 15 anos que ele teria repelido certamente. Apesar do tempo, os fatos voltam com a mesma intensidade ou mais fortes, foi o que eu disse a ele, talvez, não, mais do que antes.
É tudo tão confuso, é impossível pra a matemática, mas pra minha vida não, a volta foi muito mais de 360º. Tal qual a fênix, tudo renasceu. Eu preciso de tempo, e ele diz, eu espero. Eu espero? Isso não é real.
E antes? Até horas atrás tudo era o outro, até segundos antes eu teria largado tudo sem pensar duas vezes, nem mesmo uma, só por uns minutos ao lado do outro. Perdeu espaço? Todos os defeitos caíram como uma pedra pesada sobre mim, como nunca acontecera. Parece-me cada vez mais medíocre. E quanta mentira! Eu fechei os olhos pra tanta coisa. Como pôde pensar que eu não descobriria coisas acontecendo embaixo do meu nariz? Mas finjo-me enganada, meu encanto, que um engano feliz vale bem mais que um desengano que nos custa tanto! Agora não dá mais pra fingir.
Largar tudo, jogar tudo pro ar, que se ..... os que me confundem. Não serei um objeto nas mãos de ninguém, não serei subjugada
por meus desejos. Agora é tudo ou nada.

segunda-feira, junho 11, 2007

Passos em descompasso

Meus pensamentos já não me pertencem – Pertenceram-me algum dia por acaso? – Eles voam numa única direção, mas se esbarram estabanadamente na primeira barreira estática ou fluida. Não se entendem. São borboletas que rompem o casulo mais rápidas que a luz num descompasso frenético, não posso acompanhá-las, não posso controlá-las. Elas querem apenas tocar uma mente por hora tão distante e dispersa. Querem apenas chegar até o ponto desejado.
Por instinto, as borboletas já conhecem a fragrância exalante e atrativa, suas asas já se envolveram e se perderam em uns braços, em um corpo, fonte do néctar. Néctar-doce, néctar-vida. Néctar-desejo de borboleta.
As borboletas voam em descompasso à falta do néctar, os meus passos se perdem rumo a lugar nenhum, confusos distantes dele. Tão longe, tão perto... Vejo-o perder-se em outras asas, talvez mais hábeis, mas não mais belas nem melhores que as minhas.

OUTRO ALGUÉM
(Los Hermanos)

Não dá mais pra mim
Pra eu poder viver aqui
Sem ter a ti
Não dava pra prever
Que eu não ia mais te ter
Não dava pra saber
Que ia me deixar
Me trocar por
Outro alguém...
Outro alguém...

Olho para trás
A ver a alegria que
Você não foi capaz
De me causar
Penso neste tempo
Que passei sem perceber
Que não queria mais
E hoje estás com
Outro alguém...

quinta-feira, maio 10, 2007

Desabafo noturno


Eu, agora - que desfecho!

Já nem penso mais em ti...

Mas será que nunca deixo

De lembrar que te esqueci?

(Mário Quintana)


Eu poderia escolher não lembrar de ti. Eu poderia querer te enterrar em mim, como a tantos outros melhores que vieram e fizeram mais festa em meu ser, mas que invariavelmente foram para o cemitério da minha alma, cada um com um túmulo sóbrio e uma lápide de dizeres bem elaborados, afinal meus bons momentos são todos cuidadosamente guardados. Eu poderia ter dito não, mas que tola que eu sou, ainda não aprendi a dizer não. Ainda sou a mesma menina frágil que há pouco tentou desvencilhar suas asas. Abandonando a escuridão tão característica, abri minhas asas coloridas, um tanto obscuras é verdade, entretanto já mescladas de vida. Elas inda não perderam o tom pueril.
Eu realmente poderia ter feito milhões de coisas, ter fechado as portas, ter parecido menos fútil, ter dito mais e ao mesmo tempo menos, ou simplesmente ter ido dormir e não ter tentado desabafar com um teclado e um monitor durante a madrugada. Poderia, poderia, poderia... Tudo inútil. Que adianta tentar provar para mim mesma que eu não me importo, que estou totalmente sob controle, que não há vínculos. Parece-me estar mais do que provado, tentar esquecer me faz te lembrar. E essa agora, não perdi o sono, não se dê ao luxo de pensar ter feito tanto estrago. Desculpe, já ia esquecendo, não destroes, constroes. Seja feita a sua vontade então, como sempre. Não por obrigação, claro, mas porque isso me agrada e dessa parte já sabes, melhor que eu talvez. Lestes-me as linhas e as entrelinhas e sabes perfeitamente o quanto me agrada agradá-lo.
Pobre criatura confusa, se pensa esfinge, mas acaba por ser devorada.

sábado, abril 28, 2007

Dia-a-dia só mico...

Não é que a história de recitar o poema deu certo. Eu até quis fazer performance, mas fiquei morrendo de vergonha, mesmo assim foi bem legal. Uma entonaçãozinha na voz e pronto, sem contar que com as atuais turbulências na minha vida emotiva, inspiração não faltou.
Mas... mudando de assunto, que saudade eu estava dessa página, o Impacto suga mesmo e eu não tenho nem do que reclamar, amo o que faço apesar dos percalços. E, como não poderia deixar de ser, já paguei milhões de micos.
Um dia desses, entregando minhas redações, não é que a minha sandália arrebentou. Sem ter como andar direito, tive de dar aula descalça e mais lá na frente, putz... tropeçei, que mico. Tive de aguentar até o final, afinal, aula é aula. Valeu a pena assim mesmo, recebi um bilhete lindo, lindo, valeu por todos os micos.
Pior nem foi isso, numa das minhas maravilhosas conversas com as alunas, uma me falou que saiu de sala porque eu dei a mesma aula sobre Barroco. Ainda estou tentando me refazer, ninguém me falou nada e eu, certa de estar bem na foto, fui até o final com as mesmas piadinhas, que horror!!! Nessas horas ninguém avisa, né? Deixa a criatura continuar o mico.
O pior de todos foi na UFPA, esse vai ficar pra história, gosto da frase e não mudo, não estou nem aí. Mas deixa eu contar. Numa das únicas aulas que realmente valem a pena, o Paulo começa a falar da esfinge e seu costume, como posso explicar, sexualmente selvagem, coisa que eu não sabia. Quando ele falou da esfinge matando seus desafiantes pelo excesso do ato sexual, não sabia onde me enterrar, pedindo pra ninguém lembrar do meu perfil. Como o esperado, todo mundo apontou a Keifer, até o Paulo. Pra não ficar por baixo - sem ambiguidades, claro - , ela fez questão de espalhar em alto e bom som o meu ingênuo uso do "Decifra-me ou te devoro" nos meus perfis. Fez-se então o riso, toda sala olhando, apontando. Ele tentou ajudar, eu tentei explicar, não adiantou, todo mundo riu, deixa pra lá, c'est la vie. Uso a frase por me achar enigmática, e devorar... dá até um charme, faz bem meu estilo coquete.
Se eu continuar a contação, vou encher a página só de micos e como esse não é o tipo de coisa que a gente sai contando pra todo mundo, deixa eu ficar quieta, até porque a lista só aumenta a cada dia. Quelle horreur! Às vezes, a gente pensa que está arrebentando e na verdade está é se arrebentando. Eu que o diga, só faire de canards.

quinta-feira, março 29, 2007

É, parece que finalmente agora vai. Depois de ter que esperar um tempinho, finalmente começei as aulas de francês, e claro, já estou aprendendo algumas coisinhas. Agora sim vou poder ler o Baudelaire (amado) no original.
Uma das minhas provas é recitar um poema lindo que vai a seguir.


Paris at night
(Jacques Prévert)

Trois allumettes une à une dan la nuit
la première pour voir ton visage tout entier
la seconde por voir tes yeux
la dernière pour voir ta bouche
Et l'obscurité tout entiere pour me rappeler tout cela
en te serrante dan mes bras