É em ti que me reconheço, me reencontro, me refaço e me amplio, me exploro, me descubro. As marcas profundas que deixaste gritam a qualquer desavisado que parte de mim te pertence, que agora sou porque me encontrei em ti.
quinta-feira, novembro 11, 2010
Rascunho de algo pra o meu menino
É em ti que me reconheço, me reencontro, me refaço e me amplio, me exploro, me descubro. As marcas profundas que deixaste gritam a qualquer desavisado que parte de mim te pertence, que agora sou porque me encontrei em ti.
sábado, outubro 30, 2010
quarta-feira, outubro 06, 2010
Metade

Oswaldo Montenegro
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.
terça-feira, setembro 14, 2010
segunda-feira, agosto 30, 2010
Meu tímido luto

Tudo o que eu sabia até então é que ele era irmão do meu avô, alguém de quem minha avó falava muito bem, só um parente distante, depois percebi que ele tinha a voz parecida com a do vovô, uns costumes muito parecidos com os do papai, mas bem mais refinado que os dois juntos. Lia tanto... Nos identificamos de imediato, quantas conversas! Aquele jeito de tentar me convencer que queria ter a paixão por poesia que eu tinha, que queria saber ler como eu, quem me dera ter tanto conhecimento. Nunca vou esquecer, foi a primeira vez que não me senti uma alienígena na minha família. Isso mesmo, sempre fui a diferente, com opiniões e comportamentos estranhos e quando tinha me acostumado a isso, conheci alguém tão parecido comigo na liberdade de pensamento. E as provocações? Ele não conseguia entender como eu conseguia ser evangélica com a cabeça que tenho (como muitos outros, aliás), eu e meus pensamentos loucos.
Lembro que depois de um porre ridículo no ônibus, ele queria outro, mas de rum com sorvete, pode? Queria que eu começasse a falar a verdade, que verdade? Existe verdade? Ele riu. Nos confidenciamos, rimos, choramos, é, choramos algumas vezes, a última, timidamente na partida, tiramos fotos que nunca foram reveladas, trocamos e-mails curtos, esparsos, nunca mais. Eu queria revê-lo. Ele viria a Belém, foi o que disse ano passado. Eu iria a Brasília, começo do ano que vem, estava nos planos. Até que por esses dias chegou a notícia, internado, coma, falecimento.
Hoje não derramei nenhuma lágrima, mas o coração tá tão apertado, tão dolorido. Com aqueles pensamentos que batem sempre, de como poderia ter feito mais coisas, ter dito mais coisas, não deu tempo, não me esforçei talvez, cada um seguiu a sua vida distante. Inevitável. E agora? Só posso lamentar a perda, lamentar a distância, guardar as doces lembranças com saudade. Faltava tão pouco e só Deus sabe porque esses poucos meses deveriam nos separar. Eu só sei que dói, apenas uma semana e todo esse estrago. Depois de 4 anos não pude esquecê-lo, é como se tivemos nos despedido ontem, sem saber que nunca mais nos veriamos, dissemos um tímido tchau, certos de nos reencontrar, mesmo que depois de muito tempo. Ele garantiu que dificilmente viria a Belém, mas eu garanti que certamente voltaria a Brasilia. E vou voltar, mas infelizmente, não vou mais vê-lo.
Não fique procurando
cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise
profunda, quanto mais eu!
Ciumenta, exigente, insegura, carente
toda cheia de marcas que a vida deixou:
Veja em cada exigência
um grito de carência,
um pedido de amor!
Amor, amor é síntese,
uma integração de dados:
não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
(ninguém abraça um pedaço),
me envolva toda em seus braços
E eu serei perfeita, amor!
(Mirthes Martins)
domingo, agosto 29, 2010
Eu brava sou estúpida
Eu lúcida sou chata
Eu gata sou esperta
Eu cega sou vidente
Eu carente sou insana
Eu malandra sou fresca
Eu seca sou vazia
Eu fria sou distante
Eu quente sou oleosa
Eu prosa sou tantas
Eu santa sou gelada
Eu salgada sou crua
Eu pura sou tentada
Eu sentada sou alta
Eu jovem sou donzela
Eu bela sou fútil
Eu útil sou boa
Eu à toa sou tua.
(Martha Medeiros)
quinta-feira, agosto 26, 2010
Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
(Mário de Andrade)
Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.
Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.
Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.
sexta-feira, agosto 20, 2010
O tempo
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
quarta-feira, agosto 18, 2010
Perfil do orkut aos 23
Já não tenho dedos pra contar
De quantos barrancos despenquei
E quantas pedras me atiraram
E quantas atirei
Tanta farpa, tanta mentira
Tanta falta do que dizer
Nem sempre é so easy se viver
Hoje não consigo mais me lembrar
De quantas janelas me atirei
E quanto rastro de incompreensão
Eu já deixei
Tantos bons, quantos maus motivos
Tantas vezes desilusão
Quase nunca a vida é um balão
Mas o teu amor [ainda] me cura
De uma loucura qualquer
Encostar no teu peito
E se isso for algum defeito por mim
Tudo bem
(Ana Carolina)
segunda-feira, agosto 16, 2010
Relembrando parte das férias
A noite na ilha
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.
quarta-feira, agosto 11, 2010
As sem razões do amor
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
terça-feira, julho 20, 2010
E mais...
Eu não o reconheço mais. Sabia que poderia acontecer, achei que estivesse preparada, porque é tão fácil prever isso, mas só dá pra saber mesmo quando acontece. Por quê? Eu sabia que ia ser assim, eu sempre soube e tentei me enganar esse tempo todo. Quer dizer, são quase 5 meses, não é muita coisa.
Não, é tudo pra quem nunca tinha se apaixonado.
Pequenos desvarios
Tanta coisa pra dizer, tava na hora de atualizar o blog, mas infelizmente, por enquanto, preciso de tempo pra mim. É um péssimo momento levando em consideração que tenho a dissertação pra escrever, preciso de palavras e sei que não tenho as que preciso, além disso, não é alimentando essa sensação que isso vai passar.
Só sei que preciso de tempo pra pensar, pra entender o que estou sentido e isso é tão difícil. Não quero mais falar sobre o que aconteceu, mas minha cabeça repassa constantemente, virei refém de mim mesma, das situações que criei no passado, dos sentimentos que nutri para o presente. Eu esperava tantas coisas boas. Traição, mentiras, humilhação e sei lá quantas coisas mais. Eu deveria saber lidar com tudo isso, mas o que eu sei de relacionamentos? Só conheço aventuras, só sei o que é magoar e cair fora. De fato, tudo tem volta nessa vida.
Claridade

Do que é certo aqui pra mim
Eu não vou mudar você
Deixa o vento lhe mostrar
Ele sabe sobre mim
Eu não quero mais correr
Vou cuidar do meu jardim
Trago flores pra você
Deixo o tempo lhe mostrar
Nossa historia é mesmo assim
Chora, pois a chuva de agora
Vai molhar as suas rosas
E a tristeza vai ter fim
É hora, acabou a tempestade pra chegar
A claridade do amor
Chora, pois a chuva de agora
Vai molhar as suas rosas
E a tristeza vai ter fim
É hora, acabou a tempestade pra chegar
A claridade do amor
segunda-feira, maio 31, 2010
Serenata
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
quarta-feira, maio 26, 2010
Estou
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar,
Ou de ambas as coisas.
O que sei é que estou tonto
E não sei bem se me devo levantar da cadeira
Ou como me levantar dela.
Fiquemos nisto: estou tonto.
Afinal
Que vida fiz eu da vida?
Nada.
Tudo interstícios,
Tudo aproximações,
Tudo função do irregular e do absurdo,
Tudo nada.
É por isso que estou tonto ...
Agora
Todas as manhãs me levanto
Tonto ...
Sim, verdadeiramente tonto...
Sem saber em mim e meu nome,
Sem saber onde estou,
Sem saber o que fui,
Sem saber nada.
Mas se isto é assim, é assim.
Deixo-me estar na cadeira,
Estou tonto.
Bem, estou tonto.
Fico sentado
E tonto,
Sim, tonto,
Tonto...
Tonto.
segunda-feira, maio 24, 2010
Palavras, palavras...

O que há
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
sexta-feira, maio 14, 2010
Página 69 (Aquele olhar...)
Olga Savary
Conhecia o gosto da palavra medo, conhecia o cheiro da palavra medo, o som da palavra não tendo primazia sobre ela. Tinha a vocação dos abismos — e não sabia.
Ainda não entendera ao certo se a possibilidade maior estava no primitivo, nas coisas primitivas, ou no requinte. Porque fundamental era o mistério, e mistério nos dois havia.
Ela estava na restinga, o capim chegava-lhe aos tornozelos como poderia atrevidamente tocar-lhe o alto das coxas, o mar vinha na salsugem até seu corpo numa espécie de andar como o coleante andar das serpentes. Nunca vira olhar mais sensual, mais direto, mais provocador e animal do que esse olhar úmido e duro a um só tempo, cheio de desejo dela, mas sem ternura alguma: sou teu inimigo, te matarei de prazer e não terei piedade. O olhar dourado do abismo, o olhar cor-de-mel-da-paixão-puramente-animal-sem-a-menor-ternura, urgente, na restinga.
Homem algum a tinha olhado assim antes, tão friamente, com essa frialdade de posse. De imediato, esse olhar criou um elo quase arquetípico entre os dois, uma cumplicidade.
Ninguém jamais a tinha olhado assim e assim penetrado esse ponto perdido de sua consciência de ser também, súbita e violentamente, um animal, com esse magma a rugir nas entranhas como um animal no cio.
Como teria ele entrado de seu inconsciente para a clareira de sua consciência? Depois de Gamiane?
Este olhar: a figuração de um sonho? Apanhada na armadilha, os pontos nevrálgicos da paixão em seu corpo — os pés em primeiro lugar, quase oriental que era, a nuca, o longo do dorso, a parte de fora das ancas, o interior das coxas, a vulva - foram tomados como uma fortaleza de assalto por este olhar. Toda uma sarça ardente, sentia-se também um animal.
Sua consciência se esvaía, estranha e febril, como uma rápida perda da memória. Nunca tivera sido tão fêmea como então, refletida nesse olhar.
Feras agora, os músculos de ambos estavam retesados, possessos. Sua sede? Um castelo de águas? Só abrasamento e fúria essa atração. Bode, planto em ti um jardim de crinas e de espantos.
O olhar mais sexy que tinha visto. O olhar dourado do abismo. E era de um bode.