sexta-feira, outubro 09, 2009

Aprendendo a desaprender

Procuro despir-me do que aprendi

Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,

E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,

Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,

Desembrulhar-me e ser eu...


Alberto Caeiro

quarta-feira, outubro 07, 2009

Deslizes

“Que mitos, meu amor, entre os lençóis:

O que tu pensas gozo é tão finito” (Hilda Hist)


Querias-me novamente corpo em tua cama?

Imaginavas-me novamente tua, nua, submissa?

Dispenso as veleidades

É sombra, é sol, até foi muito, hoje é nada.

Reviver tuas palavras oblíquas e obscenas,

Puro desperdício

Labirinto pavoroso-prazeiroso e passageiro

És incapaz de conter tão vasto querer.


Tudo tão passado, tudo que fomos,

Duas almas nômades em um corpo entrelaçado

Tão perdidas, tão ligadas, intrusas em nós dois.

Toma de novo minha boca, bebe o que sobrou,

O que se perdeu e insiste em encontrar

É puro costume, mais nada.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Rossignol

Comme un vol criard d'oiseaux en émoi,
Tous mes souvernirs s'abattent sur moi,
S'abattent parmi le feuillage jaune
De mon coeur mirant sont tronc plié d'aune
Au tain violet de l’eau des Regrets,
Oui mélancoliquement coule aprèe,
S’abattent, et puis la rumeur mauvaise
Qu’une brise moite en montant apaise,
S’éteint par degrés dans l’arbre, si bien
Qu’au bout d’um instant on n’entend plus rien,
Plus rien que la voix celebrant l’Absent,
Plus rien que la voix — ô si languissante! —
De l’oiseau qui fut mon Premier Amour,
Et qui chante encore comme au premier jour;
Et, dans la splendeur triste d’une lune
Se levant blafarde et solennelle, une
Nuit mélancolique et lourde d’été,
Pleine de silence et d’obscurité,
Berce sur l’azur qu’um vent doux effleure
L’arbre qui frissonne et l’oiseau qui pleure.

(Verlaine)



Como um vôo estridente de pássaros agitados
Todas as minhas lembranças se abatem sobre mim
Abatem-se sobre a folhagem amarela
De meu coração mirando seu tronco de alno
Ao estanho violeta da água da Saudade
Que melancolicamente corre aos seus pés
Abatem-se, e depois o rumor desagradável
Que uma brisa morna soprando acalma
Extingue-se gradativamente na árvore, tanto
Que um instante depois não se ouve mais nada,
Mais nada a não ser a voz celebrando a Ausente,
Nada além da voz — oh tão enlanguescente! —
Do pássaro que foi meu Primeiro Amor,
E que canta ainda como no primeiro dia;
E, no esplendor triste de uma lua
Elevando-se pálida e solene, uma
Noite melancólica e pesada de verão,
Plena de silêncio e de escuridão,
Acalenta no azul que um vento doce aflora
A árvore que estremece e o pássaro que chora.
(Tradução acadêmica livre)

sábado, agosto 29, 2009

Meus atropelos

Agosto é mês de reflexão, é quando mais do que nunca toda as lembranças caem com um peso insuportável sobre mim e todos os medos saem sufocando meus poros, o que fazer? o que eu quero? coisas que eu realmente não sei. O tempo voa imperceptível e todos os anos por estes dias percebo todas as transformações significativas ocorridas em pouco espaço de tempo, o que eu fui, o que pretendo ser, sobretudo, o que sou, um amálgama de sensações de ontem, hoje e amanhã. A menina dá espaço à mulher que eu resisto, sou a mesma, com algumas microgigantescas diferenças.

Num desses momentos de autoanálise percebi que o incômodo não é envelhecer, sinto como se já tivesse experimentado mais sensações do que pude suportar, por isso, me sinto mais velha do que sou. O que incomoda é a indecisão insistente, o passado compulsivo e sufocante retornando a cada passo. Os perfumes de ontem se confundem com as vozes de amanhã, eu me arrasto nesse labirinto confuso seguindo em frente com as amarras de antes, tentando não desmoronar, mesmo sangrando a cada passo. Quem sabe um dia volta a ser primavera e essa flor despetalada contrarie o curso natural da vida mais bela e mais perfumada do que antes. Eu preciso pensar assim pra seguir em diante, pra apreciar a brisa que vez por outra me acaricia quando o inverno é mais insuportável.    

terça-feira, julho 28, 2009

NICOLAS BEHR


FADIGA NEURÓTICA

minha memória futura
tem vagas lembranças
da tua peste emocional

- jamais te tocarei!
Jesus te ama
eu não


"na verdade vos digo
que as saídas são poucas
e as armadilhas muitas

quanto mais falam em saídas
mais eu vejo armadilhas

pensando bem
a única saída
é continuar vivendo

mas agora mudando de assunto
me diga:
- sair é saída?"


"a cidade dorme
seu sono de fumaça
engolindo a fome
dos que nela morrem

durmo sobre meus ossos
e sobrevivo"


"mudo de canal
mudo de estação
mudo de página

se ainda não mudei de vida
foi porque nem a televisão
nem o rádio nem o jornal
me aconselharam a fazê-lo"


"de dia corro com meus medos
à noite passeio com emus sonhos"


"meus olhos estão fechados
para balanço

meu ouvido está entupido
de barulho

minhas unhas estão roídas
até os dentes

minhas veias estão entupidas
de sangue poluído"


"olhos cabelos nariz
rosto orelhas peles
ossos boca carne

eu não tenho outra coisa na cabeça"


"mudas radicalmente de vida

começar pela pele
cortando barba e bigode

depois lá dentro
desarmar o coração-bomba

aí ser perfeito

não sofrer nunca mais"


CONFESSIONÁRIO

meu pecado
é desejá-la

minha penitência
é não tê-la



domingo, maio 24, 2009

Pela manhã...

Imagens apagadas na minha retina, negação mental, não volto atrás. Escolho lembranças, as piores possíveis, e durmo com maior facilidade, se a mente insiste, eu insisto mais ainda, não posso perder uma noite tranquila de sono, é tarde. En-canto de sereia, pego no sono certa de atingir a paz procurada. Abro os olhos pela manhã e o teto parece pesar, tão rápido, mais uma noite sem sonhos, pouco descanso, mais uns minutos. Êxtase, real-sonho, não sei divisar, a imagem apagada se delineia: os olhos, o sorriso, nenhuma palavra, mãos, boca, língua, desespero, me traio, quebro promessas, pernas tremendo, não o vejo mais, sinto, preciso parar, é tarde. Abro os olhos pela manhã e o teto parece pesar, levanto, assustada, é hora de ir.

terça-feira, maio 19, 2009

(En)canto de sereia

Este blog anda abandonado pela falta de tempo e até de vontade. Tenho evitado escrever porque sei que sempre acabo voltando pra o sentimentalismo amoroso de sempre - ou a falta dele. Cansei de lamentar a falta de alguém que sinceramente havia esquecido depois de uma boa temporada de ódio. Evitei mesmo escrever agora, mas por que não, afinal? Não tenho nada a esconder, por pior que seja a aparência da causa e os fatos recentes só me deixam mais tonta com a situação aparentemente tão distante.
Existem sentimentos que me deixam bastante confusa. De dor e sufoco passei ao ódio, do ódio à mágoa, da mágoa à reclusão, da reclusão à calma, e por fim, da calma ao costume, distante e aparentemente livre. Como se diz, é o tempo, não a distância que faz esquecer.
Parece que voltei a reviver toda a euforia de outrora, entretanto, como o esperado, euforia extremamente passageira. A proximidade faz bem, e como ele mesmo diz, faz bem pro ego, há muito não sabia o que era isso. Por uns momentos, confesso que me deixei levar pela coisa, mais por impulso que por vontade, talvez a reclusão tenha feito aflorar sensações há tanto esquecidas. Eu senti a adrenalina fluir pelo meu sangue, tudo parecia igual ao que foi e por isso incomodou tanto. Nada pode ser igual ao que foi, não depois de todo o ocorrido, depois de todas as palavras trocadas. Por mais que eu queira esquecer, agora sei bem que não é tão fácil. É tudo tão igual que chega a incomodar, cadê a originalidade? Cadê a vontade de conquista, parece que não só eu queria um carinho no ego. É fácil, é só chegar perto, não é não!
Nenhum dos dois parecia se convencer de que ainda queriam. Não posso afirmar com toda a certeza por ele, mas por mim, nada parecia fazer sentido, por quê? Eu quis tanto. Há pouco mais de um ano faria tudo pra reviver isso, mesmo passando por cima do meu orgulho. Agora, as palavras, os beijos, nada faz sentido. Eu tentei reviver o sabor da aventura, em vão, pareceu tão repugnante, ainda sei fingir muito bem. O que ainda me atrai? Nem eu sei. Parece mais um labirinto, eu me afasto, eu procuro um outro caminho, mas acabo por esbarrar sempre no mesmo lugar. Um ciclo interminável, inconstante, um canto de sereia indescritível, instigante e incômodo. Totalmente paradoxal, é repugnante e atrativo, sei lá porquê.
Eu não quero realmente, estou mais do que convencida disso, embora haja algo que me seduza inevitavelmente. Há coisas realmente inexplicáveis.

Bem Longe
(Amy Lee)

Tirei seus sorrisos e fiz deles meus.
Eu vendi minha alma apenas para esconder da luz.
E agora vejo o que eu realmente sou,
Uma ladra, uma prostituta, e uma mentirosa.

Eu corro para você (fugir deste inferno),
Grito seu nome (desistindo, entregando),
Eu vejo você lá (você ainda está), bem longe.

Eu sou inexistente para você - inexistente e surda e cega.
Você me deu tudo, menos o motivo
Eu alcanço, mas eu sinto apenas ar na noite
Nem você, nem amor, simplesmente nada.

Eu corro para você (fugir deste inferno),
Grito seu nome (desistindo, entregando),
Eu te vejo lá (você ainda está), bem longe.

quinta-feira, março 19, 2009

Ascensão

Às vezes pressinto que ainda não sou,
que apenas estou sendo.
Antevejo paisagens porque percebo a escalada
e qualquer coisa me diz que chegarei a olhar-me
em todas as direções,
sentindo que tenho aos meus pés os caminhos revelados,
e as próprias nuvens se conformam em poemas...
Atiro-me ao trabalho com esforço e aventura,
sem olhar para trás,
como o alpinista que percebe ainda não ter chegado
ao ponto mais alto,
quando poderá plantar o seu marco, e só então
olhar o mundo.
Às vezes pressinto que ainda não sou,
e nessa dura escalada, angustiosa, um pensamento
me amedronta: serei?
Chegarei ao cimo
ou cansarei?

(J. G. de Araújo Jorge. Harpa submersa)

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Olhares

Olhar-se pelos olhos dos outros não é tarefa fácil, mas é inevitável no mundo em que vivo. A super exposição tem me tornado cada vez mais fria, até mesmo obsecada por mostrar essa distância tão pretendida. É difícil dar a outra face, é difícil confiar, mesmo que desconfiando. As pessoas costumam ser más em suas observações.
Apesar de todo receio, também tem as que sempre conseguem enxergar até além do que mostro ou sou. Retribuem com carinho, chegam a me impressionar pela maneira amável e fazem repensar determinadas posturas. São caricaturas, inúmeros bilhetes e até poemas que quebram a parede de gelo que há tempos impus. Um dos que mais me tocou, transcrevo aqui integralmente.

ALINE
Tayse Brito

Doce delicada flor
d'uma alma carregada de luz
assim és.
Do grande jardim destacou-se
a flor delicada, pura
uma beleza inquestionável
de enorme coração. Sonha.

Sonhos, desejos, lutas
mulher
teu futuro é incerto
teu viver é sábio.
Vive a ensinar
vive a escrever
as páginas em branco
naquele caderno de anotações.

Memórias guardadas, apagadas;
histórias vividas, esquecidas.

domingo, dezembro 14, 2008

Passeeeeeeeeii

Quanto tempo eu passei sonhando com a prova do mestrado, parecia tão distante. Desde o começo da graduação eu fazia planos pra que isso acontecesse. Inicialmente queria fazer o curso fora, mas com os percalços do caminho, acabei preferindo fazer por aqui mesmo. Quer dizer, não dá pra chamar um emprego de percalço, por mais que por vezes esse pareça. Foi exatamente esse emprego que me impediu de fazer a prova ano passado como estava planejado, na verdade, eu quase não consigo me formar. Este ano, decidi fazer uma especialização pra não perder contato com a universidade, e pra ter um título, claro. A obsessão era tanta que fiz a única da UFPA, especialização em Língua Portuguesa. Olha o sacrifício, pensei. Que nada, graças a Deus é só o nome, adorei as disciplinas de literatura. As provas, enfim, foram rolando. A primeira me levou pro hospital, tava tão nervosa que tive uma crise e passei uma tarde no soro dias antes da prova. Na segunda, o nervosismo me atacou na hora da prova, não escrevi coisa com coisa, meu orientador fiscalizando, um tema que nunca esperava, certamente não passaria. Graças a Deus não foi assim, quantas lágrimas eu derramei, não podia acreditar ao ver minha média na lista. Não foi tão boa, mas o suficiente pra passar pra última e mais terrível fase: a entrevista. Professores que eu gosto muito estavam na banca, minhas amigas dizendo que eu estava passada, não é bem assim. Meu nervosismo me fez ter um ataque de riso na hora. Eles foram muito bacanas, não quer dizer nada. Não perguntaram nada do meu projeto, e agora, não era esse o objetivo da entrevista? Eles riam das minhas palhaçadas e quando eu pensei que estava começando, está ótimo, Aline, pode ir. O quê, já? Meu Deus, meu projeto é tão ruim que nem comentaram nada. Tá ótimo mesmo? Espera o resultado, Aline. E como foi difícil esperar, não tinha mais unhas pra roer, os dias não passavam. No dia do resultado acordei e direto pro computador, não conseguia esperar até as 2 da tarde. Saiu mais cedo. Quando vi o link, uma oração antes. Misericódia, Senhor! E lá estava minha média. Mãe, passei. Lágrimas, gritos, telefonemas. Desde o listão do vestibular não sentia uma felicidade tão grande. Dias depois, eu e Brenda planejando o doutorado. Aprendi que tenho asas, posso começar a voar.

Cântico negro

José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria b
om que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

segunda-feira, setembro 15, 2008

Corredores

Eu andei
Sorri
Chorei tanto
Não me arrependi
Ganhei e perdi
Fiz como pude
Lutei contra o amor
Quanto mais vencia, me achava um perdedor
Mais tarde me enganei e vi com outros olhos
Quando às vezes não amei a mim
Não por falta de amor
Mas amor demais
Me levando pra alguém
Quem visitou os corredores da minha alma
Soube dos enganos, secretos planos e até os traumas
Eu sempre fui muito só

Eu andei
Sorri
Chorei tanto
Fui quase feliz
Fiz tudo que quis
Fiz como pude
Desprezei meu ego
Dando esmolas a ele
Como se fosse um cego
Mais tarde me enfeitei, até pintei os olhos
Quando às vezes não amei a mim
Não por falta de amor
Mas amor demais
Me escapando pra alguém
Quem visitou os corredores da minha alma
Soube dos meus erros
E dos nós que fiz bem na linha da vida
Eu sempre fui muito só

domingo, julho 27, 2008

Novas reflexões

261. O eu - o foco do sofrimento. A redenção - destruição do eu. Completa absorção nas massas.
266. Crime - sentimento de culpa - necessidade de absolvição - mobilização a serviço de um ideal - novamente culpa - execução de um novo crime a serviço do ideal - novamente a necessidade de uma expiação - vinculação redobrada ao ideal - e assim por diante. Um círculo vicioso.
270. E assim, de repente ou paulatinamente, a vida se esgota, se esvai, se esvai. A estima toma o lugar da amizade. A autonegação substitui o respeito. Obediência em vez de participação. Sujeição no lugar da fraternidade. O entusiasmo toma o lugar da dúvida. Tortura no lugar da alegria. Repressão no lugar da saudade. Mortificação no lugar da meditação. Traição em vez de separação. Uma bala em vez de uma justificativa. Matança em vez de cisão. Morte em vez de mudança. Viagem purificadora em vez de morte. "Imortalidade" em vez de vida.
(A caixa preta - Amós Oz)

quinta-feira, julho 17, 2008

Coisas que tenho aprendido nessas férias

Lendo algumas coisas, achei algo que me despertou um interesse peculiar. Meio auto-ajuda talvez, mas quem é que não precisa disso de vez em quando? É bom olhar um pouco pra dentro de si, se analisar pra aparar as arestas e enfim crescer, grandes passos começam por pequenos degraus.

Dez mandamentos paradoxais

1. As pessoas são ilógicas, irracionais e egocêntricas. Ame-as, apesar de tudo.
2. Se você fizer o bem, as pessoas o acusarão de ter motivos egoístas ocultos. Faça o bem, apesar de tudo.
3. Se você tiver sucesso, ganhará falsos amigos e inimigos verdadeiros. Busque o sucesso, apesar de tudo.
4. O bem que você faz hoje será esquecido amanhã. Faça o bem, apesar de tudo.
5. A honestidade e a fraqueza o tornarão vulnerável. Seja honesto e franco, apesar de tudo.
6. Os maiores homens e mulheres com as maiores idéias podem ser eliminados pelos menores homens e mulheres com as mentes estreitas. Pense grande, apesar de tudo.
7. As pessoas favorecem os oprimidos, mas seguem somente os bem-sucedidos. Lute pelos oprimidos, apesar de tudo.
8. Aquilo que você passa anos construindo poderá ser destruído da noite para o dia. Construa, apesar de tudo.
9. As pessoas realmente precisam de ajuda, mas poderão atacá-lo se você ajudar. Ajude-as, apesar de tudo.
10. Dê ao mundo o melhor de você e levará um soco na cara. Dê ao mundo o melhor de você, apesar de tudo.

quinta-feira, julho 10, 2008

Tenho até medo de pensar no que eu fiz, no que eu vivi durante aqueles dias, de quando achava que a felicidade era tudo o que nos preenchia. Eu fazia vista grossa pra tudo e olhando por cima, sabe que até parecia legal? Era tudo tão simples, só usar as três palavrinhas mágicas: quero te ver, e pronto! Num passe de mágica todos os meus problemas sumiam.

Eles sempre pareciam muito pequenos porque era só te ver, ouvir tuas histórias e os teus problemas insistentes a me sufocar que eu esquecia de mim. Tão cansada de falar, eu só ouvia e o meu corpo era bem recompensado. Deves ter percebido que eu sou meio masoquista, né? Mesmo quando eras mais grosseiro e descontavas em mim as tuas frustrações, meu sorrizinho de canto de boca aparecia, não por desdém, mais por satisfação mesmo.

Bom, agora nada mais importa, na verdade, nem mesmo sei porque esses momentos teimam em dançar na minha cabeça se tudo o que eu quero é distância. Por isso, não se engane, não quero ter nada de volta e percebo que nem era essa a intenção da nossa última conversa, eu confundo tudo mesmo.

Já descartei qualquer possibilidade de ter de volta e só agora percebo que terminou muito antes do que eu imaginava. É muito mais fácil entender quando se está de fora, quando já se abandonou tudo, isso mesmo, eu não vivo de ruínas e ao contrário do que tinhas me dito, tens um grande poder destrutivo. Há muito não vejo o mesmo homem que me conquistou, talvez porque ele nunca tenha existido. Mas não se preocupe – se é que algum dia foste capaz de te preocupar comigo – a fase do ódio passou. Nestas palavras não existe nenhum traço de raiva, é só desabafo.

São palavras confusas, eu sei, mas sei também que és capaz de entender, embora tenhas alegado não entender o que eu escrevo. Aliás, acho que nunca saberás da existência de nenhuma dessas linhas apesar de estarem tão expostas. Deixa pra lá, como sempre, até algum dia.

domingo, julho 06, 2008

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.

quarta-feira, junho 11, 2008

Algumas reflexões pós-tragédia

191. "O sacrifício da vida pessoal no altar do ideal sagrado" é apenas uma desesperada adesão aos ideais quando a vida pessoal morre.
200. Em outras palavras: com a morte da alma o cadáver ambulante trasforma-se num ser totalmente público.
(Caixa preta - Amós Oz)

sexta-feira, junho 06, 2008

"Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni"

terça-feira, junho 03, 2008

Nada

Olhares brevemente trocados. Expressões por pura polidez, frias e distantes. Eis a situação atual. Novo jogo? Os tempos de outrora foram apagados. Suas expressões paracem-me indecifráveis. Eu prendi todos os olhares como o esperado, menos um, o único que me importava, o único que não se importava. Depois de todo esmero do creme nos cabelos, do perfume nos pontos estratégicos de circulação, da escolha meticulosa das bijuterias, do vestido sensual e discreta... nada.

Ele andava ao meu redor, distância de alguns pequenos passos. Eu, sentada, de cabeça baixa e aparentemente concentradíssima na íntima tinta vermelha sobre os garranchos a minha frente, ouvia cuidadosa o som da mesma voz que tantas vezes passeou em meus ouvidos enquanto brincava com o meu sorriso, arrepiando pele, poros e pensamentos. A mesma voz, mas em tom distinto. Dirigida a mim, a voz era mais grave, mais máscula, mais obscena. Agora tão distante, o som é quase irreconhecível. Oi! É tudo o que tem a me dizer? O costumeiro beijo na testa e de volta ao trabalho.

Eu voei baixo naquela cadeira desconfortável, naquele espaço opressivo que eu suporto por questões de sobrevivência. Por instinto eu voei, eu fugi daquelas palavras confusas dos papéis dispersos na mesa, tentando em vão achar qualquer pista despejada naqueles míseros segundos precedentes. Nada.

Nada ao redor, em volta ou dentro de mim. O barulho de vozes dissonantes se espalha, meus olhos parecem despertar. É ele. É ele novamente, tentando roubar minha atenção mesmo não se dirigindo a mim, eu o conheço. Desmotivada volto os olhos para os papéis, nem o vi ir. Deixa pra lá. Coloquei minha capa obscura de gelo, me cobri de solidão e continuei a tarefa de esquecê-lo, mas como dizia meu sábio provérbio: esquecer é o esforço vão de tentar apagar as lembranças tatuadas na alma.

Só mais alguns minutos e a tortura acaba.

Tô indo embora. Eu o vi virar as costas, fechar a porta e me esquecer.

É tudo que restou, nada...

sexta-feira, maio 23, 2008

De volta ao passado...

É, esta sou eu, dando o braço a torcer, admitindo erros que não cometi pra trazer tudo de volta. Não é isso que é a vida? Pelo menos é a minha vida. A vida de um irreconhecível ser humano dotado de um estranho prazer pela tempestade, pelos labirintos universais em busca do Minotauro faminto. Quem disse que precisa haver uma lógica nisso tudo? Não há lógica em mim, nem em nada ou ninguém.
Se eu refaço o caminho, posso novamente desfazê-lo e agora sem maiores prejuízos. Cada grão de areia me ensinou a difícil tarefa de dar os primeiros passos sozinha e eu merecia. Eu precisava ficar só pra aprender a estar acompanhada. E mesmo que tudo volte a ser como era antes, eu já guardei o meu fio de Ariadne.

Modinha

Cecília Meireles

Tuas palavras antigas
Deixei-as todas, deixei-as,
Junto com as minhas cantigas.
Desenhadas nas areias.

Tantos sóis e tantas luas
Brilharam sobre essas linhas,
Das cantigas — que eram tuas —
Das palavras — que eram minhas!


O mar, de língua sonora,
Sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora:
Que o resto é pouco e apagado



domingo, março 16, 2008

Kuroi namida

Asu nante konai you nito negatta yoru kazoekirenai
Yume mo ai mo nakushi ame ni utareta mama naiteru… Kasaritsukenai de kono mama no watashi de ikite yukutame
Nani ga hitsuyou
Jibun sae shinjirezu nani wo shinjitara ii no

Kotae wa chikasugite mienai


Kuroi namida nagasu

Watashi ni wa nani mo nakute kanashisugite
Kotoba ni sae nara nakute

Karadajuu ga itami dashite

Taerarenai hitori dewa


Yonaka ni nakitsukarete egaita jibun janai jibun no kao
Yowasa wo kakushita mama egao wo tsukuru no wa yameyou…

Kasaritsukenai de ikiteyuku koto wa kono yo de ichiban

Muzukashi koto?

Anata kara morau nara katachi no nai mono ga ii
Kowareru mono wa mou iranai

Kuroi namida nagashi sakendemo
Shirame kao de ashita wa kite
Onaji itami ni butsukaru
Sonna hibi wo tsuzukeru nara
Tooku kiete shimaitai
Wagamama to wakattemo

Kuroi namida nagasu
Watashi ni wa nani mo nakute kanashisugite
Kotoba ni sae nara nakute
Karadajuu ga itami dashite

Kuroi namida nagashi sakendemo
Shirame kao de ashita wa kite
Onaji itami ni butsukaru
Sonna hibi wo tsuzukeru nara
Tooku kiete shimaitai
Wagamama to wakattemo

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

"É o amor e não o tempo que cura nossa dor. Pessoas especiais que passam por nossas vidas, não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Insônia de um século lapidar

Não por acaso as primeiras postagens do ano. Pensava que criaria expectativas, que as mudanças aconteceriam, mas que nada, tudo pareceu tão igual. Os dias agora passam tão depressa e a pior coisa é esta estabilidade.
Gosto da mudança, do inesperado, do surpreendente. Mentiria se dissesse que não houve nada de diferente, porque houve sim, mas é o tipo de coisa que ainda não consegui definir se é bom ou ruim.

Eu perdi o equilíbrio, estive a um fio da queda e mesmo não caindo, senti a dor, o gosto do sangue na minha boca. Mesmo assim, a vida não se esvaiu, eu resisto apesar de tudo. Era o melhor de mim, era o fôlego, era o que fazia o meu sangue correr.
Não vou mais lamentar nada, a dor passou. Esses tremores são apenas vertigens provocadas pela insistência em olhar pra trás, porque tudo ainda parece igual mesmo sendo tão diferente.
Passou, agora é hora de seguir em frente. Se as mudanças não aconteceram, eu mudo pra que elas aconteçam.


insônia de um século lapidar

uma inscrição em seu túmulo

uma data de dígitos quase ilegíveis

[não era assim que tinha de ser?]
ar habitado por esta escrita

corroendo pedra & pensamento

uma fuligem por herança
agora fatalmente te respiramos

página dobrada

sufocada no esquecimento

um tempo asqueroso a pronunciar-se
numa vertigem em seu halo funesto

[nunca soubemos ao certo

o que esse amor quis lapidar]


benoni araujo

sexta-feira, novembro 23, 2007

De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos.
De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que
Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n'água.
(Hilda Hist)

sábado, novembro 10, 2007

Um mar sem ondas

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
(Miguel Torga)