Procuro despir-me do que aprendi
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu...
Alberto Caeiro
Procuro despir-me do que aprendi
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu...
Alberto Caeiro
O que tu pensas gozo é tão finito” (Hilda Hist)
Querias-me novamente corpo em tua cama?
Imaginavas-me novamente tua, nua, submissa?
Dispenso as veleidades
É sombra, é sol, até foi muito, hoje é nada.
Reviver tuas palavras oblíquas e obscenas,
Puro desperdício
Labirinto pavoroso-prazeiroso e passageiro
És incapaz de conter tão vasto querer.
Tudo tão passado, tudo que fomos,
Duas almas nômades em um corpo entrelaçado
Tão perdidas, tão ligadas, intrusas em nós dois.
Toma de novo minha boca, bebe o que sobrou,
O que se perdeu e insiste em encontrar
É puro costume, mais nada.
(Verlaine)
Agosto é mês de reflexão, é quando mais do que nunca toda as lembranças caem com um peso insuportável sobre mim e todos os medos saem sufocando meus poros, o que fazer? o que eu quero? coisas que eu realmente não sei. O tempo voa imperceptível e todos os anos por estes dias percebo todas as transformações significativas ocorridas em pouco espaço de tempo, o que eu fui, o que pretendo ser, sobretudo, o que sou, um amálgama de sensações de ontem, hoje e amanhã. A menina dá espaço à mulher que eu resisto, sou a mesma, com algumas microgigantescas diferenças.Num desses momentos de autoanálise percebi que o incômodo não é envelhecer, sinto como se já tivesse experimentado mais sensações do que pude suportar, por isso, me sinto mais velha do que sou. O que incomoda é a indecisão insistente, o passado compulsivo e sufocante retornando a cada passo. Os perfumes de ontem se confundem com as vozes de amanhã, eu me arrasto nesse labirinto confuso seguindo em frente com as amarras de antes, tentando não desmoronar, mesmo sangrando a cada passo. Quem sabe um dia volta a ser primavera e essa flor despetalada contrarie o curso natural da vida mais bela e mais perfumada do que antes. Eu preciso pensar assim pra seguir em diante, pra apreciar a brisa que vez por outra me acaricia quando o inverno é mais insuportável.

Imagens apagadas na minha retina, negação mental, não volto atrás. Escolho lembranças, as piores possíveis, e durmo com maior facilidade, se a mente insiste, eu insisto mais ainda, não posso perder uma noite tranquila de sono, é tarde. En-canto de sereia, pego no sono certa de atingir a paz procurada. Abro os olhos pela manhã e o teto parece pesar, tão rápido, mais uma noite sem sonhos, pouco descanso, mais uns minutos. Êxtase, real-sonho, não sei divisar, a imagem apagada se delineia: os olhos, o sorriso, nenhuma palavra, mãos, boca, língua, desespero, me traio, quebro promessas, pernas tremendo, não o vejo mais, sinto, preciso parar, é tarde. Abro os olhos pela manhã e o teto parece pesar, levanto, assustada, é hora de ir.
Este blog anda abandonado pela falta de tempo e até de vontade. Tenho evitado escrever porque sei que sempre acabo voltando pra o sentimentalismo amoroso de sempre - ou a falta dele. Cansei de lamentar a falta de alguém que sinceramente havia esquecido depois de uma boa temporada de ódio. Evitei mesmo escrever agora, mas por que não, afinal? Não tenho nada a esconder, por pior que seja a aparência da causa e os fatos recentes só me deixam mais tonta com a situação aparentemente tão distante.
Às vezes pressinto que ainda não sou,
Olhar-se pelos olhos dos outros não é tarefa fácil, mas é inevitável no mundo em que vivo. A super exposição tem me tornado cada vez mais fria, até mesmo obsecada por mostrar essa distância tão pretendida. É difícil dar a outra face, é difícil confiar, mesmo que desconfiando. As pessoas costumam ser más em suas observações.
Quanto tempo eu passei sonhando com a prova do mestrado, parecia tão distante. Desde o começo da graduação eu fazia planos pra que isso acontecesse. Inicialmente queria fazer o curso fora, mas com os percalços do caminho, acabei preferindo fazer por aqui mesmo. Quer dizer, não dá pra chamar um emprego de percalço, por mais que por vezes esse pareça. Foi exatamente esse emprego que me impediu de fazer a prova ano passado como estava planejado, na verdade, eu quase não consigo me formar. Este ano, decidi fazer uma especialização pra não perder contato com a universidade, e pra ter um título, claro. A obsessão era tanta que fiz a única da UFPA, especialização em Língua Portuguesa. Olha o sacrifício, pensei. Que nada, graças a Deus é só o nome, adorei as disciplinas de literatura. As provas, enfim, foram rolando. A primeira me levou pro hospital, tava tão nervosa que tive uma crise e passei uma tarde no soro dias antes da prova. Na segunda, o nervosismo me atacou na hora da prova, não escrevi coisa com coisa, meu orientador fiscalizando, um tema que nunca esperava, certamente não passaria. Graças a Deus não foi assim, quantas lágrimas eu derramei, não podia acreditar ao ver minha média na lista. Não foi tão boa, mas o suficiente pra passar pra última e mais terrível fase: a entrevista. Professores que eu gosto muito estavam na banca, minhas amigas dizendo que eu estava passada, não é bem assim. Meu nervosismo me fez ter um ataque de riso na hora. Eles foram muito bacanas, não quer dizer nada. Não perguntaram nada do meu projeto, e agora, não era esse o objetivo da entrevista? Eles riam das minhas palhaçadas e quando eu pensei que estava começando, está ótimo, Aline, pode ir. O quê, já? Meu Deus, meu projeto é tão ruim que nem comentaram nada. Tá ótimo mesmo? Espera o resultado, Aline. E como foi difícil esperar, não tinha mais unhas pra roer, os dias não passavam. No dia do resultado acordei e direto pro computador, não conseguia esperar até as 2 da tarde. Saiu mais cedo. Quando vi o link, uma oração antes. Misericódia, Senhor! E lá estava minha média. Mãe, passei. Lágrimas, gritos, telefonemas. Desde o listão do vestibular não sentia uma felicidade tão grande. Dias depois, eu e Brenda planejando o doutorado. Aprendi que tenho asas, posso começar a voar. "Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
Eu andei
Tenho até medo de pensar no que eu fiz, no que eu vivi durante aqueles dias, de quando achava que a felicidade era tudo o que nos preenchia. Eu fazia vista grossa pra tudo e olhando por cima, sabe que até parecia legal? Era tudo tão simples, só usar as três palavrinhas mágicas: quero te ver, e pronto! Num passe de mágica todos os meus problemas sumiam. Eles sempre pareciam muito pequenos porque era só te ver, ouvir tuas histórias e os teus problemas insistentes a me sufocar que eu esquecia de mim. Tão cansada de falar, eu só ouvia e o meu corpo era bem recompensado. Deves ter percebido que eu sou meio masoquista, né? Mesmo quando eras mais grosseiro e descontavas em mim as tuas frustrações, meu sorrizinho de canto de boca aparecia, não por desdém, mais por satisfação mesmo.
Bom, agora nada mais importa, na verdade, nem mesmo sei porque esses momentos teimam em dançar na minha cabeça se tudo o que eu quero é distância. Por isso, não se engane, não quero ter nada de volta e percebo que nem era essa a intenção da nossa última conversa, eu confundo tudo mesmo.
Já descartei qualquer possibilidade de ter de volta e só agora percebo que terminou muito antes do que eu imaginava. É muito mais fácil entender quando se está de fora, quando já se abandonou tudo, isso mesmo, eu não vivo de ruínas e ao contrário do que tinhas me dito, tens um grande poder destrutivo. Há muito não vejo o mesmo homem que me conquistou, talvez porque ele nunca tenha existido. Mas não se preocupe – se é que algum dia foste capaz de te preocupar comigo – a fase do ódio passou. Nestas palavras não existe nenhum traço de raiva, é só desabafo.
São palavras confusas, eu sei, mas sei também que és capaz de entender, embora tenhas alegado não entender o que eu escrevo. Aliás, acho que nunca saberás da existência de nenhuma dessas linhas apesar de estarem tão expostas. Deixa pra lá, como sempre, até algum dia.
Ah, se já perdemos a noção da hora
Olhares brevemente trocados. Expressões por pura polidez, frias e distantes. Eis a situação atual. Novo jogo? Os tempos de outrora foram apagados. Suas expressões paracem-me indecifráveis. Eu prendi todos os olhares como o esperado, menos um, o único que me importava, o único que não se importava. Depois de todo esmero do creme nos cabelos, do perfume nos pontos estratégicos de circulação, da escolha meticulosa das bijuterias, do vestido sensual e discreta... nada.
É, esta sou eu, dando o braço a torcer, admitindo erros que não cometi pra trazer tudo de volta. Não é isso que é a vida? Pelo menos é a minha vida. A vida de um irreconhecível ser humano dotado de um estranho prazer pela tempestade, pelos labirintos universais em busca do Minotauro faminto. Quem disse que precisa haver uma lógica nisso tudo? Não há lógica em mim, nem em nada ou ninguém. Modinha
Cecília Meireles
Asu nante konai you nito negatta yoru kazoekirenai Kuroi namida nagashi sakendemo
Shirame kao de ashita wa kite
Onaji itami ni butsukaru
Sonna hibi wo tsuzukeru nara
Tooku kiete shimaitai
Wagamama to wakattemo
Kuroi namida nagasu
Watashi ni wa nani mo nakute kanashisugite
Kotoba ni sae nara nakute
Karadajuu ga itami dashite
Kuroi namida nagashi sakendemo
Shirame kao de ashita wa kite
Onaji itami ni butsukaru
Sonna hibi wo tsuzukeru nara
Tooku kiete shimaitai
Wagamama to wakattemo
Não por acaso as primeiras postagens do ano. Pensava que criaria expectativas, que as mudanças aconteceriam, mas que nada, tudo pareceu tão igual. Os dias agora passam tão depressa e a pior coisa é esta estabilidade.
De tanto te pensar, me veio a ilusão.
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,