sábado, dezembro 14, 2013




A cada dia que passa chego a conclusão de que a única solução pra mim é deixar de ser eu mesma.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Tô fugindo. Fugindo de tudo e de todos, inclusive de mim mesma. Tô lambendo as feridas, tentando me recompor sem fazê-lo de todo, em parte por incapacidade, em parte por falta de vontade. À flor da pele, completamente exposta. Nua. Morrendo de medo. Cansada. Mais uma vez traída. Mais uma vez abandonada. Não me reconheço. Reconheço a dor e fujo dela. Sou muito amada. Vejo os meus sonhos se realizando um a um. Não sei mais o que quero. Não sou mais eu. Não quero mais tudo isso. Não sei o que quero. Não sou boa o bastante pra manter tudo o que tenho. Nada é meu. Tudo passa. Não tenho capacidade e competência pra ser quem eu preciso ser pros outros. Pra mim? Não sei. Eu grito, todos escutam, riem. Sou bonita e inteligente. Ninguém vê aqui dentro. Eu falo. Eles não ouvem. Sou frágil. Não, sou forte. Deixem, sou forte. As rachaduras estão à mostra. Ninguém vê. Eu escondo. Por que ninguém vê? Eu não sou boa o bastante. Não posso fugir, não consigo. Preciso ficar. Aguento. Até quando? Não posso cair de novo. Não quero cair de novo. Dói. Vai ser pior. Sou forte. Eu posso, não me pressionem. Não, eu, não, não pressiono. Eu preciso aguentar. Vou ficar de pé dessa vez, é só não me abrir demais. Tô me negociando de novo. Não, de novo não. Não quero amar. Preciso amar. Eu quero mais. Eu preciso de mais. Sorrio. Tô feliz. Pára, deixa eu ficar feliz, deixa eu seguir em frente, não me segura. Eu quero, me deixa. Deixa eu viver, eu quero. Só não quero dor, deixa. Tô com medo. Não vai se repetir, eu mudei. Susto. Mudei muito. Ainda sou eu? Não lembro, esqueci. Apaguei, não consigo mais. Gosto de mim, é diferente. Estou orgulhosa. Sou uma mulher forte. Menina medrosa. Não dá pra voltar. Olha pra frente. Não vejo nada. Pra frente. Vou cair, não dá. Cadê ele? Quem? Alguém, qualquer um. Segura a minha mão. Desisto, não tem ninguém. Ele não quer ficar comigo. Tô com medo. Não tenho pra onde ir. Vou fugir.

terça-feira, junho 18, 2013

Dia desses....

Numa dessas sessões de terapia que me propus a frequentar, me peguei relembrando um dos poemas do Camilo Pessanha tão caros pra mim. Um dos que tantas vezes recitei nos meus momentos áureos de sala de aula. Tentando responder, mais uma vez, a frequente pergunta: como estás te sentindo agora? E sem saber como explicar, só ele me vinha a mente. Mesmo que, por incrível que pareça, não conseguisse lembrar dos versos. Estranho? Fui desafiada a me expressar de qualquer outra forma que não fosse falando (um convite gentil pra não dizer que falo demais), mas não sei desenhar, pintar ou qualquer coisa do gênero, isso imediatamente me remeteu ao poema, mesmo não lembrando exatamente o que ele diz. Só consegui rabiscar com giz de cera preto "sem ela o coração é quase nada". Não lembrei tudo naquele momento, depois, aos poucos minha mente foi relaxando, no banho, no outro dia, lembrei do poema quase todo, palavra por palavra, exceto por um verso, um único verso. 
Já tava ficando louca com a minha memória ridícula até esse maldito poema me dar um pouco de esperança, mesmo que ínfima. Aos poucos, fui pensando e descobri que meus esquecimentos são uma tentativa inconsciente de me  proteger do meu passado. Na verdade, sei que tê-lo embaixo do tapete não é me livrar, por isso volta e meia me pego rolando na sujeira, mas é incrível como é penoso lembrar de algumas coisas fundamentais, parte disso é melhor não lembrar mesmo, mas outra parte tornaria a minha vida mais fácil.
Tem tanto coisa que prefiro esquecer, embora saiba que é melhor enfrentar e superar. Ouço e até repito a ladainha, mas na prática, isso é impossível. Não sou capaz de lidar com meu passado e pra ser sincera, a fórmula mágica sempre funcionou: colocar embaixo do tapete até deixar de ser relevante. Depois de um tempo fica tão passado que nem importa mais. Simples assim. Dessa vez, tá demorando um pouquinho mais,  foi um pouco mais difícil também, mas vai funcionar novamente ou vai levar minha memória toda junto, não sei bem, ou um pouco das duas coisas, quem sabe. Nunca sei o que esperar mesmo.
O tal poema sempre falou um pouco de mim, hoje fala tudo. Sempre invejei o pessimismo simbolista, a dor existencial é tão bela na arte. Tempos depois, tenho certeza, na realidade, ela é pesada demais. Dói muito sofrer e com o tempo, é difícil imaginar que haja vida sem dor. Então, a pergunta se repete todos os dias, a todo tempo dentro de mim. Será possível isso? Se é possível, não descobri a fórmula e não tenho mais forças pra me aventurar a fim de descobrir. Sentido sei que não existe. É um vício quase desnecessário tentar entender tudo, porque no fundo não é possível compreender, nem mesmo explicar. 
Me perco divagando nas minhas explicações, pouco depois nem lembro o que tava tentando entender há poucos segundos e logo paro de tentar. Luta completamente vã. Perco pra mim mesma numa batalha imaginária, enquanto a vida passa e não chego a lugar nenhum. Faz algum sentido? Caminho sem volta.

segunda-feira, junho 17, 2013

Um me achava gorda, foi passear com uma magrela sem graça. Outro me achava magra demais, foi passear com uma periguete vulgar. Quando vão aprender a me aceitar como sou? Quando vão entender que não sou como as outras? Sou feita de extremos, sou excessivamente exagerada, não pra agradar os outros, mas porque é assim quem sei ser eu: do meu jeito.

terça-feira, maio 07, 2013

O silêncio das estrelas


Lenine

Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um deus e amanheço mortal
E assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim
Ver que toda essa procura não tem fim
E o que é que eu procuro afinal?
Um sinal, uma porta pro infinito, o irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais, de mais...
Afinal, como estrelas que brilham em paz, em paz...
Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um deus e amanheço mortal
Um sinal, uma porta pro infinito, o irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais...

sábado, março 09, 2013

Cantares do sem nome e de partidas


Hilda Hist

II
E só me veja
No não merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
Me entupir de remédios não vai melhorar a situação, não vai se quer aliviar o que estou sentindo. Mas vai me parar por algumas horas, vai me fazer parar de pensar e tudo o que menos quero agora é pensar. Eu quero dormir, fechar os olhos e dormir sem sentir dor, sem ouvir críticas. Só quero ser esquecida por algumas horas e me abandonar em mim.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Cantiga do sem-nome e de partidas


Hilda Hist

VII

Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo vêem aquela.
Às vezes, acho que preciso me estapear pra ver se paro com este mal hábito. Tem horas que é só deixar pra lá. Assim como veio, vai. C'est la vie!

terça-feira, fevereiro 26, 2013

Queria muito poder compartilhar minha felicidade com ele, mas... Escolhas erradas novamente! Deus sabe o que faz.

E-mail de desabafo

     ...
   Resolvi escrever porque acho que consigo me expressar um pouco melhor assim, melhor até do que quando somente falo, mas resolvi fazê-lo, sobretudo, porque queria dizer isso agora, não mais tarde quando não estivesses mais com ela ou em outro momento em que tivesses tempo. Impulso? Talvez, porque não sei se diria o mesmo depois, se quer sei se teria vontade de dizer algo depois. 
  Na verdade, não sei por onde começar, mas como preciso dizer algo, bem, não sei se te importa, mas acabei de tomar café da manhã e foi uma sensação indescritível. Tomar café com leite e comer pão com manteiga... sinceramente, não lembro da última vez em que fiz isso. Confesso que foi mais incômodo que prazeroso, mas quer saber, eu o fiz, ninguém me pediu, só achei que me faria bem e isso é tudo que quero agora, ficar bem. Aliás, tenho pensado tanto nisso. Como ficar bem? Como encontrar algum contentamento diante de todos os últimos estremecimentos involuntários. 
  Tu tens sido um algo involuntário (digo algo, porque como falava antes, ainda não encontrei um adjetivo pra te descrever), alguém que não esperava, não só porque, de fato, não esperava por ninguém, mas também por ter causado tantas mudanças aqui dentro. Quantos planos? Quantas expectativas? Lançaste alguma coisa que me deu vontade de viver novamente, de me sentir viva, não só por ti, por mim. Percebi que ainda estou viva, só precisava despertar algo que já estava dentro de mim. Quanto a isso, podes até sentir um pouco de arrogância, porque fizeste parte dessa mudança.
  Foi essa percepção que me trouxe a tranquilidade de comer, dormir, planejar o que vou fazer hoje, algo simples pra qualquer ser humano normal, nem tanto pra mim, como sabes. Ontem, me peguei pensando, ele está com ela, ele demanda mais tempo a ela que a mim. Isso me mostra o interesse. Não porque, como disseste, eu não tenha tempo. O tempo é tão relativo, querido. O tempo que passas com ela poderia ser comigo, na prática, tenho as noites e as manhãs livres, não é o mesmo tempo? Enfim, não vou questionar, não era esse objetivo. Falei nisso pra te dizer da surpresa que me causou o fato de me perceber tranquila. à noite, peguei meu violão, tentei arranhar algumas coisas, fazer o que mais amo neste mundo, cantar; li um pouco, fiz minhas orações e sozinha tive uma epifania, constatei algo tão simples, mas tão surpreendente pra o momento que vivo: estou sozinha e feliz, mesmo sabendo que neste exato momento ele está com a outra, sabe-se lá fazendo o quê e esse o quê não me importa. Outra coisa, o resultado da Uepa ainda não saiu e isso também não me importa.
  Acho que sofri tanto todos estes anos que me acostumei ao sofrimento a ponto de sofrer por antecedência e por mais racional que tente ser, a ansiedade não é algo que eu consiga controlar com tanta facilidade, aliás, ela geralmente me derruba. Não fosse a incrível capacidade de atuar que a sala de aula me ensinou ao longo dos anos, talvez tivesse enlouquecido há tempos. Entretanto, exatamente agora, estou sem as máscaras, completamente exposta e tranquila. Eu não sei qual será tua escolha, não sei se vou passar na prova e quer saber, pelo menos, só por agora não quero me importar com isso. Quero encostar minha cabeça no travesseiro e dormir bem sem precisar de um calmante, como hoje. Acordar sorrindo, mesmo que não seja do teu lado. Ser feliz dando aula àquelas crianças, mesmo que isso não seja o que planejei pra mim. Eu quero o agora, quero ser feliz agora, porque o agora passa tão rápido e sou tão confusa quanto a esfinge. 
  Não quero entender nada, não quero me preocupar com nada. Só quero viver. Na verdade, quero muito que tu faças parte disso, mas não sou eu quem vai dizer o que deves fazer. O que posso dizer, é que fazendo ou não parte da minha vida, é assim que vou viver daqui por diante, tranquila. Nada nessa vida é por acaso, Deus permite que algumas coisas aconteçam pra que façamos escolhas. Eu fiz a minha e independente do resultado, quero ficar tranquila, porque sei que Ele quer o melhor pra mim e o que tiver de ser será.
  Podes estar pensando, pra que ela escreveu tudo isso? Posso te dizer que nem eu sei muito bem o porquê. Sei que me conquistaste de forma tão intensa que pareces a única pessoa no mundo pra quem consigo me abrir, dizer tudo, me expor sem minhas tão caras máscaras de todas as maneiras possíveis mesmo com aquela pontinha de vergonha que já conheces. É um grande avanço, pra mim, pelo menos. 
 Bom, espero não ter te cansado tanto e peço, não leve a mal meu desabafo, é que parece que és uma das únicas pessoas do mundo que consegue entender minhas loucuras sem me julgar, que me quer (pelo menos, por enquanto) apesar de todos os pesares e ainda consegue ver algum tipo de beleza em meio a todos os meus defeitos. Essa é uma das muitas razões pra eu te querer e pra te importunar tanto com as minhas tolices. Mas isso é outra história. De qualquer forma, conversamos depois, quando conseguires achar um tempinho pra mim.
  Bjnhs,
  ...

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Até o fim


Madame Saatan
Até o fim que me cabe
Até o fim que se sabe
Até o fim que me cabe
Eu quero ir
Até o fim que se abre
Eu quero ver
Até o fim que circula
Até ouvir o silêncio na rua

Até o fim não entendo
Até o fim do bom senso
Até o fim que destrói
Eu quero ir
Até o fim permanente
Eu quero ser
Até o fim que liberta
Até ouvir o barulho da rua

E o fim que me resta é teu
E o fim que me resta é teu
E o fim que me resta é teu
E o fim que me resta é teu


terça-feira, fevereiro 19, 2013

"entre a minha boca e a tua, há tanto tempo, há tantos planos, mas eu nunca sei pra onde vamos".

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Divagações quase improdutivas


Às vezes, a arrogância vai por água abaixo. Por mais racional que nós dois tentemos ser, por mais vantagens que eu aparentemente pareça ter, sei lá, tudo é tão imprevisível. Por que cargas d'água fui olhar aquele sorriso? Por que foi atrás de mim quando eu tava tão quieta que ninguém nem me notava? Por que a carona? Por que a conversa? Por que tudo aquilo depois? Alguns beijos e discutimos sobre casa, carro, filhos, casamento. Quem começa um relacionamento (ou sei lá como se pode chamar isso) falando em casamento? Devemos ser dois insanos atraídos exatamente pela loucura de sermos.insanos. Não há explicação razoável nem mesmo para alguém tão materialista quanto ele.
Ele, mais um ele, meu Deus! Pedagogo, ateu e todos os outros adjetivos tão abomináveis pra mim e sabe-se lá porquê tão atrativos só por serem dele. Afinal, por que ele? Não existe nada, nada mesmo que fizesse se quer sentir atração suficiente pra chegar a ter qualquer contato, nem mesmo amigável e, de repente, estávamos grudados. Essa imprevisibilidade toda tá me enlouquecendo. Esta indecisão, então... Ou entra na minha vida, ou sai de uma vez por todas, simples assim. Pra que complicar? Já vivi a situação da imprevisibilidade, da necessidade irremediável, da paixão intensa até o final mais trágico possível. Não preciso repetir a dose. Ninguém é igual a ninguém, é certo. Aliás, não há pontos em comum entre os dois, mas a situação em si é tão semelhante que chega a dar calafrios. Incomoda muito.
Na verdade, é a sensação de estar na corda bamba a todo tempo que incomoda, sobretudo, por essa situação incomum. Sou muito altruísta, mais até do que gostaria de ser, mas livros e homens, não se empresta, nem se divide. Não posso, nem vou aceitar a tal situação, nunca fiz isso, não vou começar agora. 
Quer saber, já fiz uma vez, posso fazer outra, ou se decide ou decido eu. Mando embora morrendo por dentro, mas mando. Piora por um tempo, mas passa. 
Preciso ter foco, não posso mais viver a vida de ninguém, nem em função de ninguém. Já tá mais do que na hora de mudar. Não posso precisar de alguém pra dizer que me ama, pra resolver minhas carências e não tô mais afim de vida dupla, de aventuras escondidas, não posso mais viver assim. Tô caminhando pros 30, tá na hora de aposentar a garotinha. Quem sabe, um dia, a princesinha interior possa até viver o conto de fadas, isso se tiver de ser, se não não será. Não quero também os extremos nem do pessimismo, nem do otimismo. Quero o equilíbrio. Todo mundo diz que a vantagem de envelhecer é conseguir chegar a um equilíbrio consigo e com os outros e já que sempre envelheci cedo demais, quero esse equilíbrio logo. 
Aliás, tava tão feliz por isso antes dele aparecer pra desestabilizar tudo. Se tinha outra na história, pra quê veio? Pra quê fazer tanta questão de me conquistar? Às vezes, eu me pergunto se eu não estou mais interessada na disputa que no prêmio. Não seria a primeira vez. Sempre amei a sensação de vencer sem nem mesmo me esforçar pra isso, aconteceu tantas e tantas vezes involuntariamente que agora, na calmaria, pode ser só a saudade recalcada. 
Ah, não sei de mais nada, só sei que dessa vez não posso ficar tão impassível. Nunca fui de pressionar, mas farei, porque é necessário. Agora, posso dizer, quando se é mais nova só se vê a dor da perda, parece que o mundo vai ruir se terminar, hoje, vejo que não é bem assim, se terminar, aparece outro ou outros, eles não param de aparecer, não importa o quanto eu me sinta sufocada por tanta gente ao redor. O que muda é o momento, a química, nem sempre, mas, às vezes, até as intenções. Não é a primeira vez que me falam em casamento, isso sempre foi um carma pra mim. Por mais que eu quisesse parecer aventureira, eles sempre conseguiam ver algo de conservador ou sei lá o quê pra me dizerem que sou mulher pra casar. A diferença é que neste momento da minha vida, a proposta passou a ser algo a se considerar, por incrível que pareça. Assustador no primeiro momento, mas passível de análise. 
Eu que até pouco tempo queria tanto a solidão, passei a pensar que poderia terminar o ano casada e com a possibilidade de uma gravidez, ele quer tanto e fala tanto nisso. Resolveria de uma vez por todas, como ele mesmo disse. Mas não, obrigada, isso não combina comigo. Engravidar pra segurar alguém, tô passando longe. É mais  fácil engravidar e sumir, isso sim. Sempre sonhei com a minha filha linda com seus cachinhos, esperta e falante, parecida comigo, alguém que poderia amar, de fato, sem medo de ir embora, sem medo de perda. Filhos são sempre filhos, não importa o que façam, é um amor eterno e incondicional. 
Um homem, isso é sim é complicado. Eles mentem, enganam, traem, mudam tanto o discurso com o passar do tempo... não tenho mais tempo pra isso. Sei como é amar um homem, conheço toda a dor e o prazer que um relacionamento a dois pode proporcionar. Mas um filho, minha filha, seria completamente novo, perfeito talvez. Já tenho idade, maturidade e, finalmente, estabilidade. Será que tá na hora? Uma amiga acabou de dizer que não posso querer agarrar o mundo todo desse jeito a vida inteira, não posso mais tentar estudar tanto e trabalhar ao mesmo tempo, que se eu tivesse casa, marido e filho pra cuidar estaria mais satisfeita.
Queria tanto passar num concurso, pronto, passei, e muito bem, aliás, empatei no primeiro lugar, é de causar orgulho, não? Deus tem sido muito bom pra mim. Como se não bastasse, tô num dos melhores cursinhos de Belém sendo relativamente bem paga pro trabalho que tenho. Além disso, fui convidada a participar de um grupo de pesquisa de Estudos Culturais na Ufpa, meu primeiro passo pro tão sonhado doutorado em Antropologia. O que falta? Não sei, não sei mais. Eu deveria estar feliz e não é que não esteja, mas quero me sentir completa. Quero a sensação de realização, de, enfim, passar a outra fase da vida. Me aventurei e aproveitei o suficiente, fui mais do que intensa em cada uma das minhas loucuras, tá na hora de parar um pouco, de ter responsabilidades maiores. 
Estou envelhecendo e só tenho visto coisas boas nisso. As pessoas reclamam tanto do tempo. Claro que tem desvantagens, como tudo na vida, mas a vantagens são tão grandes. Me vejo na melhor fase da minha vida, por isso, quero saber como aproveitá-la sem arrependimentos. É possível?   

domingo, fevereiro 17, 2013

Deixa estar


Los Hermanos

Ligue, ligue, ligue, ligue, ligue para mim
Diga, diga, diga, diga, diga que me ama
Que eu não vou mais implorar
Se quer saber, deixa estar
Digo que não ligo, mas não vivo sem você
Eu falo, não me calo, tiro sarro
Só pra ver se eu consigo despertar o seu amor
Deixa estar
Eu sei, que na verdade eu não consigo entender o nosso amor
Que o teu silêncio fala alto no meu peito
E que nós dois, estamos juntos na distância
Discrepância do destino!
Ziguezagueando zonzo de te procurar
Eu tranco no meu pranto canto alto de euforia
Que eu queria te cantar
Guardo pra mim
Deixa estar
Sei que fez um mês entre vocês, de união
Pouco, muito pouco, quase nada
Nesta estrada você está na contramão
E a solidão, deixa estar
Vocês vão aprender que nessa vida
não se pode mais errar
Vão descobrir que entre as estrelas e o chão existe o mar
Aí então a euforia, um belo dia, vai passar
E cairá sobre seu mundo, num segundo, a traição
Deixa estar

quarta-feira, fevereiro 13, 2013


É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!


Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.


Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.”
(Fernando Pessoa)

Pequena arrogância

Não te procurei, cativar faz parte de mim. Veio porque quis e vai quando quiser. Como te disse, aproveita bem, porque quanto a isso sou extremamente arrogante: teu corpo está lá, mas teus pensamentos ainda estão aqui, pertinho de mim.

domingo, fevereiro 10, 2013



"Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade.
Escolho-os não pela pele, mas pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos, nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.”

(Fernando Pessoa)

sábado, fevereiro 09, 2013

Cacos

Vander Lee
Ok, você pediu
você plantou
você se abriu
você sonhou
e acordou
entre suspiros
a olhar para a distancia
uma vida a esperar...
por quem você mal viu
e até chorou
quando partiu
que procurou
mas estava a mil
agora esquece essa intenção
que a vida acende
o candelabro da razão
juntando outros lados
da mesma questão,
as cartas na mesa
e as cinzas no chão,
dispenso as certezas
mas presto atenção
recolho meus cacos
e deixo nos braços da canção
e vou dar uma volta
olho a minha volta
nada tem volta
volta

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Uma foto, uma única foto ao acaso. Eu era linda, nós estavamos lindos. Por que não éramos felizes?

domingo, janeiro 27, 2013

Poema da saudade

Martha Medeiros
Em alguma outra vida,devemos ter feito algo muito grave,para sentirmos tanta saudade...
Trancar o dedo numa porta doí.
Bater o queixo no chão doí.
Doí morder a língua,cólica doí, doí torcer o tornozelo.
Doí bater a cabeça na quina da mesa,carie doí,pedras nos rins também doí.
Mas o que mais doí é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma brincadeira de infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade de nós mesmo,o tempo não perdoá.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se Ama.
Saudade da pele,do cheiro,dos beijos.
Saudade da presença,e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ele no quarto,sem se verem,mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ele para a trabalho,mas sabiam-se onde.
Você podia ficar sem vê-lo,e ele sem vê-la,mas sabiam-se amanhã.
Contudo,quando o Amor de um acaba,ou torna-se menor no outro.
Sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber se ele continua fungando num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Se aprendeu a entrar na internet,se aprendeu a ter calma no trânsito.
Se continua preferindo cerveja a uísque(e qual a cerveja)
Se continua sorrindo com aqueles olhos apertados,e que sorriso lindo.
Será que ele continua cantando aquelas mesmas musicas tão bem(ao menos eu admirava)?
Será que ele continua fumando e se continua adorando Mac Donald's?
Será que ele continua não amando os livros,e ela cada vez mais?
E continua não gostando de dar longas caminhadas,e ela não assistindo televisão?
Será que ele continua gostando de filmes de ação,e ela de chorar em comédias.
Será que ela continua lendo os livros que já leu?
Será que ele continua tossindo cada vez que fuma?
Saber é não saber mesmo!!!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais longos,não saber como encontrar
tarefas que lhe cessem o pensamento.
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música,não saber como vencer a dor 
de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ele está com outra,e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz,e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro,se ele está mais belo.
Saudade é nunca mais saber de quem se Ama e ainda assim doer.
Saudade é isso que senti(e sinto) enquanto estive escrevendo e o que você (deveria)
provavelmente estar sentido agora depois que acabou de ler.”
Quem inventou a distância nunca sofreu a dor de uma saudade!!!

sábado, janeiro 26, 2013

Sono que não vem... 
As ideias explosivas na minha cabeça deixam estilhaços do passado misturados aos recentes. 
Pessoas diferentes com mesmos hábitos causam sensações confusas. 
Eu-ontem-hoje-amanhã perd
                                             ida.

Onde Deus possa me ouvir



Gal Costa
Sabe o que eu queria agora, meu bem?
Sair, chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo, um ombro
Onde eu desaguasse todo desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém
Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender por que se agridem
Se empurram pr´um abismo
Se debatem, se combatem sem saber
Meu amor
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir
Minha dor
Eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui, pode sair
Adeus.
Ai, o costume, sinal ruim, muito ruim. Pior ainda, começar a sentir falta. Melhor sair antes que a coisa piore e eu comece a aceitar. Aff... 

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Tanta coisa já aconteceu, tanta, tanta, que vontade de ligar pra ele, meu confidente. Pensei. Lembrei. Faz muito tempo que deixamos de ser amigos, melhor deixar pra lá, o papo tosco do face é muito mais do que o necessário. Apesar da insônia crônica, melhor tentar dormir, é mais proveitoso.

Isso é só o começo

Lenine
Hoje me perguntaram o que é o amor
Não soube responder...
E ele que antes tinha nome, CPF e endereço... virou só mais um substantivo abstrato sem rosto...
" O que não tem fim sempre acaba assim".

Isso é só o começo!
Aqui chegamos, enfim
A um ponto sem regresso
Ao começo do fim
De um longo e lento processo
Que se apressa a cada ano
Como um progresso insano
Que marcha pro retrocesso
E é só o começo
Estranhos dias vivemos
Dias de eventos extremos
E de excessos em excesso
Mas se com tudo que vemos
Os olhos viram do avesso
Outros eventos veremos
Outros extremos virão
Prepare seu coração
Que isso é só o começo
É só o começo
Isso é só o começo
É só o começo
Aqui chegamos, porém
Num evento diferente
Onde a gente se entretém
Um ao outro, frente a frente
Deixando um pouco ao fundo
O ambiente do mundo
Por esse aqui, entre a gente
É só o começo
 Assim nesse clima quente
No espaço e tempo presente
Meu canto eu lanço, não meço
Minha rima eu arremesso
Pra que nada fique intacto
E tudo sinta o impacto
Da ação de cada canção
Preparem-se irmã, irmão
Que isso é só o começo.

Velhas preferências em novas referências

Como pode continuar a ser atraída pelo mesmo tipo de homem? Que isso? Quando se pensa que mudou, os mesmos vícios voltam, quando se acha que mudou mesmo, valendo, alguma coisa do passado vem despertar lembranças, ainda que as pessoas não sejam as mesmas. Gosto de cigarro na boca, cheiro de perfume barato impregnado-impregnando, pegada de homem... Desisto. Já era!

quinta-feira, dezembro 27, 2012

Jugendgedenken

Gottfreied Keller

Ich will spiegeln mich in jenen Tagen,
Die wie Lindenwipfelwehn entflohn,
Wo die Silbersaite, angeschlagen,
Klar, doch bebend, gab den ersten Ton,
Der mein Leben lang,
Erst heut noch, widerklang,
Ob die Saite längst zerrissen schon




Lembranças da juventude
(trad. Celeste Aída Galeão)

Quero espelhar-me naqueles dias
que fugiram com o balanço das folhas
em que a corda de prata, ao soar
claro, embora trinado, deu o primeiro tom
que durante a minha vida
e hoje ainda, ressoa
mesmo que a corda já esteja de há muito partida.

Verborgenheit

Mörike
Lass, o Welt, o lass mich sein!
Locket nich mit Liebsgaben,
Lasst dies Herz alleine haben
Seine Wonne, seine Pein!



Recolhimento
(trad. Celeste Aída Galeão)
Deixa-me, mundo, deixa-me ser
Não me atraias com dons de amor
Deixa só a este coração ter
Suas delícias, sua dor.

Em nome

Em nome da tua ausência
Contruí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei.

(de A Casa, Sophia de Mello Breyner Andresen)  

sexta-feira, dezembro 14, 2012

A tarde de um fauno


Stéphane Mallarmé


L'après-midi d'un faune

(Eglogue - 1865-1975)


Le Faune:

Ces nymphes, je les veux perpétuer.Si clair,         
Leur incarnat léger, qu'il voltige dans l'air
Assoupi de sommeils touffus.Aimai-je un rêve?
Mon doute, amas de nuit ancienne, s'achève
En maint rameau subtil, qui, demeuré les vrais
Bois même, prouve, hélas! que bien seul je m'offrais
Pour triomphe la faute idéale de roses.Réfléchissons...
ou si les femmes dont tu gloses
Figurent un souhait de tes sens fabuleux!
Faune, l'illusion s'échappe des yeux bleus
Et froids, comme une source en pleurs, de la plus chaste:
Mais, l'autre tout soupirs, dis-tu qu'elle contraste
Comme brise du jour chaude dans ta toison?
Que non! par l'immobile et lasse
pâmoison
Suffoquant de chaleurs le matin frais s'il lutte,

Ne murmure point d'eau que ne verse
ma flûte

Au bosquet arrosé d'accords; et le seul vent
Hors des deux tuyaux prompt à s'exhaler avant
Qu'il disperse le son dans une pluie aride,
C'est, à l'horizon pas remué d'une ride
Le visible et serein souffle artificiel
De l'inspiration, qui regagne le ciel.

O bords siciliens d'un calme marécage
Qu'à l'envi de soleils ma vanité
saccage
Tacite sous les fleurs d'étincelles,
CONTEZ
«Que je coupais ici les creux roseaux domptés

» Par le talent; quand, sur l'or glauque de lointaines
» Verdures dédiant leur vigne à des fontaines,
» Ondoie une blancheur animale au repos:
» Et qu'au prélude lent où naissent les pipeaux
» Ce vol de cygnes, non! de naïades se sauve
» Ou plonge... »

Inerte, tout brûle dans l'heure fauve

Sans marquer par quel art ensemble détala
Trop d'hymen souhaité de qui cherche le la:
Alors m'éveillerai-je à la ferveur première,
Droit et seul, sous un flot antique de lumière,
Lys! et l'un de vous tous pour l'ingénuité.

Autre que ce doux rien par leur lèvre ébruité,

Le baiser, qui tout bas des perfides assure,
Mon sein, vierge de preuve, atteste une morsure
Mystérieuse, due à quelque auguste dent;
Mais, bast! arcane tel élut pour confident
Le jonc vaste et jumeau dont sous l'azur on joue:
Qui, détournant à soi le trouble de la joue,
Rêve, dans un solo long, que nous amusions
La beauté d'alentour par des confusions
Fausses entre elle-même et notre chant crédule;
Et de faire aussi haut que l'amour se module
Évanouir du songe ordinaire de dos
Ou de flanc pur suivis avec mes regards clos,
Une sonore, vaine et monotone ligne.
Tâche donc, instrument des fuites,
ô maligne

Syrinx, de refleurir aux lacs où tu m'attends!
Moi, de ma rumeur fier, je vais parler longtemps
Des déesses; et par d'idolâtres peintures
À leur ombre enlever encore des
ceintures:

Ainsi, quand des raisins j'ai sucé la
clarté,

Pour bannir un regret par ma feinte écarté,
Rieur, j'élève au ciel d'été la grappe vide
Et, soufflant dans ses peaux lumineuses, avide
D'ivresse, jusqu'au soir je regarde au travers.

O nymphes, regonflons des SOUVENIRS divers.
"
Mon oeil, trouant les joncs, dardait chaque encolure

Immortelle, qui noie en l'onde sa brûlure
Avec un cri de rage au ciel de la forêt;
Et le splendide bain de cheveux
disparaît
Dans les clartés et les frissons, ô pierreries!
J'accours; quand, à mes pieds, s'entrejoignent (meurtries
De la langueur goûtée à ce mal d'être deux)
Des dormeuses parmi leurs seuls bras hasardeux;
Je les ravis, sans les désenlacer,
et vole
À ce massif, haï par l'ombrage frivole,
De roses tarissant tout parfum au soleil,
Où notre ébat au jour consumé soit
pareil."

Je t'adore, courroux des vierges, ô délice
Farouche du sacré fardeau nu qui se glisse
Pour fuir ma lèvre en feu buvant, comme un éclair
Tressaille! la frayeur secrète de
la chair:
Des pieds de l'inhumaine au coeur de la timide
Qui délaisse à la fois une innocence, humide
De larmes folles ou de moins tristes
vapeurs.
"Mon crime, c'est d'avoir, gai de vaincre ces peurs

Traîtresses, divisé la touffe échevelée
De baisers que les dieux gardaient si bien mêlée:
Car, à peine j'allais cacher un rire
ardent
Sous les replis heureux d'une seule (gardant
Par un doigt simple, afin que sa candeur de plume
Se teignît à l'émoi de sa soeur qui s'allume,
La petite, naïve et ne rougissant pas:)
Que de mes bras, défaits par de vagues trépas,
Cette proie, à jamais ingrate se délivre
Sans pitié du sanglot dont j'étais encore ivre. »
Tant pis! vers le bonheur d'autres m'entraîneront
Par leur tresse nouée aux cornes de mon front:
Tu sais, ma passion, que, pourpre et déjà mûre,
Chaque grenade éclate et d'abeilles murmure;
Et notre sang, épris de qui le va saisir,
Coule pour tout l'essaim éternel
du désir.
À l'heure où ce bois d'or et de cendres se teinte

Une fête s'exalte en la feuillée
éteinte:
Etna! c'est parmi toi visité de
Vénus
Sur ta lave posant tes talons ingénus,

Quand tonne une somme triste ou s'épuise la flamme.
Je tiens la reine!
O sûr châtiment... 
Non, mais l'âme  
De paroles vacante et ce corps alourdi
Tard succombent au fier silence de midi:
Sans plus il faut dormir en l'oubli du blasphème,
Sur le sable altéré gisant et comme j'aime
Ouvrir ma bouche à l'astre
efficace des vins!
Couple, adieu; je vais voir l'ombre que tu devins.



A tarde de um fauno

(Écloga 1865-1875)


O fauno:

Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida,sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava
por triunfo,afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.

Quem sabe as mulheres que glosas

são configurações de anseios que possuis?
Repara na ilusão que emana dos azuis
e frios olhos,fonte em pranto, da mais
casta
Suspiros, toda, a outra - alegas que contrasta,
como brisa diurna e tépida que passa?
Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso - ameaça
a todo matinal frescor de suave fama
se uma fonte murmura, esta flauta a derrama
no vizinho silvedo, irrigando-o de acordes;
nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta avena que o som em chuva árida espalha,
e senão no horizonte, em sua calma sem falha,
o sereno bafor da pura inspiração,
visível, regressando ao céu, por ascensão.

Ó plagas sículas e calmas, da lagoa,

que saqueadas tem minha vaidade, à toa,
e tácita- no amor das flores destes páramos­ –DIZEI
"que aqui me achava em busca destes cálamos sonoros
quando além, por entre as brandas linhas
de ouro glauco, a fulgir nas fontes e nas vinhas,
eis ondeia uma alvura. animal em repouso;
mas que logo também, ao lento e langoroso
prelúdio linear da avena de cinabre
vôo, de cisnes não, de náiadas se abre."

A hora fulva que arde inerte não revela

a astúcia, de intenções de aliciação tão bela.
Sinto-me despertar sob um fervor de antanho,
onda antiga de luz envolvendo-me em banho,
eu, lírio, um dentre vós segundo a ingenuidade!

Mais que o nada tão doce, essa espontaneidade,

beijo, sussurro suave e soma de perfídia,
meu corpo, sem mais prova, atesta ainda, insídia,
uma oculta mordida augusta, de alto dente;
mas, vede, arcano tal tomou por confidente
o gêmeo junco, par que sob o azul se soa;
que recebendo em si o sôpro, logo entoa
e sonha, em solo longo e leve, que a beleza
em derredor está a mudar-se com presteza
dentro na confusão de si mesma e do canto;
e nas modulações altas de amor,entanto
evanescendo esvai-se apaga-se a teoria
clara, de dorsos e de flancos; ó magia
de uma sonora e vã monótona mesmice!

Frauta maligna, órgão de fugas, sem ledice,

vai, fístula, florir no lago e ali me aguarda.
Eu, cheio de rumor altivo, já me
tarda
falar de deusas; por idólatras pinturas,
de suas sombras irei tomar-lhes as cinturas.
Assim, quando ao racimo extraio-lhe a substância /sorvo
e contra a mágoa apuro a minha vigilância,
e rindo soergo no ar o já vazio cacho
e, na pele de luz assoprando, eu me
acho
- ébrio - capaz de então a tarde toda o olhar.

Outras RECORDAÇÕES, vamos, ninfas, lembrar

“Meus olhos entre o junco... além uma
figura
imortal que se banha e a cálida brancura
luminosa do corpo em onda leve imerge.
Sôbre o áureo esplendor dos cabelos converge
um claror e um fremir de fulva
pedraria!
Corro; mas a meus pés, jungidas na agonia
do langor
deste mal de serem dois em um,
vejo duas dormindo, em abraço
comum.
Como estavam tomei e trouxe a esta eminência
desamada da sombra e dela sem frequência;
aqui se esvai ao sol das rosas o perfume;
mas para o nosso embate a força aqui me assume."

Ó furor virginal, eu te adoro, ó concisa
fúria de corpo nu, fardo nu que desliza
fugindo ao lábio ardente e a refulgir livores
de ampla trepidação da carne em seus pavores!
E isso, da inumana à tímida que vê
já perdida a inocência e dos olhos
revê
uma lágrima louca ou um tanto menos triste.
"Meu crime foi querer, na fôrça que me assiste,
apartar dividir um tufo desgrenhado
de beijos e de amor, dos deuses bem guardado.
Na hora em que esconder eu ia o riso ardente
na feliz maciez de urna, só - e contente
procuro no condor de pluma em que
se agita
o sabor da emoção que vívida palpita
na sua ingênua irmã, pequena, que não cora
eis de meus braços que se esquecem foge fora
tal ingrata cruel, que na impiedade esfria
a estuosa ebriez em que me consumia."

Foi pena. Irei buscar alhures a

esperança
de em meus chavelhos ver, enastrada, uma trança.
Bem sabes, ó paixão, que rubras mui vermelhas
cada cereja abriu seu murmurar de abelhas.
E o nosso sangue vai, enviado em seu ensejo, percorrendo o pendor eterno do desejo.
Na hora em que de ouro e cinza este
bosque
se pinta logo em festa se exalta a folharia extinta.
Ó Etna, é junto a ti! Vênus vem pelos ares.
Leve na lava pousa ingênuos colcanhares
enquanto sonolento as chamas tens em
calma.
Tenho pois a rainha!

Ó dura pena...

A alma
de palavras vazia e o corpo em letargia
sucumbem afinal ao fero meio-dia.
Cumpre dormir assim, no olvido, de mansinho,
deitado nesta areia.
Ó que delicia ao vinho
a boca oferecer e a seu astro eficaz!

Par, adeus: Quero ver como ûa sombra se faz.

Belo Horizonte, 18.08.1959
[Nota do tradutor José Lourenço de Oliveira: "relida em 02.1963 e achada ruim"]